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O acontecimento Trump e a hegemonia no tempo das fábricas de mentiras

Para nos opormos às fábricas de mentiras precisamos ser trabalhadores da contra-hegemonia apostados em construir uma contra-hegemonia dos trabalhadores.

A eleição de Trump nas presidenciais dos EUA, para além de agitar até as boas consciências mais tranquilizadas com o estado de coisas, gerou uma profusão de pasmadas explicações. Primeiro tivemos várias leituras que sobrevalorizavam a sua vitória limitando-se à ideia de um suposto furacão populista de dimensões arrasadoras ao qual teria sido difícil de resistir; seguiram-se-lhe de perto leituras desresponsabilizadoras das escolhas desastrosas do Partido Democrata: culparam-se os votos desviados pelos pequenos candidatos (sempre o voto útil…) para logo de imediato voltar o silêncio sobre estes, disparou-se genericamente contra a burrice dos americanos, mas sobretudo sublinhou-se o papel do FBI ou da intervenção da Rússia nos leaks e investigações que comprometeram a imagem da candidata democrata (focando aliás a atenção mais nas fugas de informação do que no seu conteúdo…); por sua vez, as leituras mais à esquerda uniram-se geralmente na culpabilização directa de Clinton enquanto representante do establishment político e de muitos interesses económicos, social-liberal com quase nada de social e impopular Secretária de Estado da guerra mas dividiram-se na apreciação da actuação de Bernie Sanders entre aqueles que o co-responsabilizam pelo facto de não se ter apresentado como candidato independente e aqueles que justificam a continuidade da sua disputa pela maioria do Partido Democrata.

A vingança da ferrugem?

Contudo, as leituras mais detalhadas acabaram por afunilar quase sempre em três motivos combinados: o geográfico-económico, o racial e de classe e o da retórica e da disputa de hegemonia.

O primeiro motivo responde às perguntas “onde” e “o quê” e impôs-se devido à aritmética da ressaca dos resultados. Contas feitas, se Clinton ganhou no voto directo com quase mais três milhões de votos, Trump ficou à frente no Colégio Eleitoral que decide a eleição indirecta sobretudo devido a votos democratas que passaram para o lado da abstenção em alguns Estados-chave (recorde-se, por exemplo, que no Michigan Trump teve até menos votos do que George W. Bush tivera em 2004 e ainda assim este tinha perdido a votação naquele Estado).

A expressão “Rust Belt”, designando a cintura outrora próspera e fortemente industrializada do nordeste americano, tornou-se central na cartografia explicativa do acontecimento. Desta forma, teria sido o declínio económico causado pela desindustrialização, deslocalização e automatação da sua economia o principal responsável pela derrota Democrata. Os especialistas do costume não perderam tempo a atirar de volta à cara de Hillary a expressão “é a economia, estúpida”, anos depois da famosa frase de campanha de Bill. Todavia, estes mesmos especialistas tinham até à contagem dos votos desvalorizado as motivações económicas directas ou dado de barato que favoreceriam Clinton. Esta conclusão parecia evidente até porque as condições económicas no Rust Belt melhoraram e o desemprego desceu nos anos mais recentes.

O segundo motivo responde à pergunta “quem” e ao mesmo tempo que está ligado intimamente ao primeiro motivo também o ultrapassa: se é sobretudo dentro do espaço do Rust Belt que os votos dos trabalhadores brancos empobrecidos teriam sido decisivos, também foi um pouco por todo o país que este eleitorado teria sucumbido ao charme desajustado de Trump: Clinton teria deixado passar a ideia que era sobranceira e/ou ignorava os problemas destas pessoas ao mesmo tempo que o presidente eleito foi eficaz a criar uma narrativa económica simples: a culpa dos problemas económicos é dos tratados de comércio internacionais que é preciso rasgar promovendo o proteccionismo e/ou da imigração que é preciso travar construindo muros.

Para além desta, uma narrativa complementar à do “trabalhador pobre branco e pouco escolarizado” mapeou mais detalhadamente as diferenças de votação de forma a acrescentar a dimensão da ruralidade assumindo assim o voto em Trump como uma revolta rural contra as elites urbanas.

A retórica Trump l'oeil

O terceiro motivo responde à pergunta “como” e concentra-se no que Trump fez para ganhar os votos decisivos mais do que no que não fez ou fez de errado Clinton. Por esta razão tornou-se noutra via rápida da desculpabilização democrata. Só que, apesar disso, muitas das reflexões suscitadas a este propósito não deixam de ter relevância para pensar os novos avatares da extrema-direita. E os dois eixos principais de análise que têm sido avançados a este propósito (uma retórica diferente e a forma da utilização das novas ferramentas de comunicação online) são importantes pelo que nos dizem sobre como se está a alterar a disputa hegemónica em tempos de estagnação económica, de redes sociais e de ofensiva fascista.

A vitória de uma personagem tão peculiar pode ser apresentada, ao mesmo tempo, como espantosa e como normal. Normal porque é a vitória do multimilionário e dos poderosos círculos de interesses que o rodeiam reafirmando pelo caminho o sempre comovente falso mito do self made man. Normal porque é a vitória da política-espectáculo e do político entertainer vendido persistentemente durante anos pelos meios de comunicação social. Normal porque com ele se consolidaram os temas tradicionais do extremismo cristão e do ultraconservadorismo republicano somando-se-lhes eficazmente a narrativa do maverick, o anti-político que mobiliza o voto de protesto pseudo-anti-sistema elevando assim a intensidade da política do medo, do securitarismo, do machismo gabarola, do ressentimento racial e conseguindo tanto oferecer vários bodes expiatórios (mexicanos, negros, muçulmanos) quanto apresentar os odiosos inimigos políticos costumeiros (os “liberais”, o establishment federal opressor, o “politicamente correcto”).

Assim, compreender Trump passa por decifrar onde ele mimetiza o Tea Party e os outros setores da extrema-direita norte-americana (e portanto onde se limita a seguir uma “normalidade” ainda que esta pareça excêntrica aos olhos de alguns europeus), onde replica o costumeiro modus operandi “populista” dos novos e velhos autoritarismos e onde excede carismaticamente estes pontos de partida. É, aliás, por parecer atípico até na sua área política que a sua vitória pode ser igualmente apresentada como espantosa. Espantosa devido à sua capacidade de resistência: não só Trump se tornou imune aos efeitos negativos de gaffes (como já George W. Bush se mostrara) como ainda “escândalos” que teriam acabado com qualquer outro candidato, como o não pagamento de impostos ou a suspeita de abusos a mulheres, não o conseguiram sequer beliscar. Espantosa porque desfez a imagem tradicional do político e do Presidente da República responsável, contido, razoável: Trump afrontou os códigos demo-liberais de conduta política ao não ser afável para com os adversários e ao hostilizar grupos inteiros, tornando a agressividade arrogante não apenas uma arma política aceitável mas fazendo inclusive dela o seu mais destacado sinal de superioridade.

Espantosa porque parece ter revertido a seu favor a relação entre mentira e política em tempo de descrédito da política liberal tradicional e das suas verdades. Apesar de muitos dos seus apoiantes não reconhecerem as suas mentiras como tal (devido ao fechamento e desconfiança face às entidades comunicativas que as desmentem), ainda assim outros reconhecê-las-ão e não se terão importado com elas. O espantoso aqui será que o presidente eleito dos EUA tenha convencido tanta gente que acredita que ele mente despudoradamente a votar em si na mesma. Aparentemente, o multimilionário conseguiu apresentar-se na forma paradoxal do mentiroso credível: ou porque encarna o vendedor completamente descarado que se mostra como tal; ou porque não se esforçando por disfarçar a mentira e colocando-a como meio aceitável para conseguir um efeito mostra-se assim o inverso da imagem do político tradicional que se esconde na aparência de sinceridade impecável mas que afinal desilude; ou porque se mostra o corajoso-impulsivo desculpável por dizer o que lhe vem à cabeça podendo assim desdizer-se; ou porque é o mentiroso adorado pelo próprio poder de mentir e de se escapar com a mentira. Seja como for, a sua naturalização da mentira é tudo menos um traço mais ou menos desculpável de uma personalidade excêntrica e está alinhada com as tentativas persistentes da sua área política de moldar valores e atitudes, de criar determinadas emoções, de distorcer a realidade simplificando-a ao extremo e tornando-a mais confortável para alguns. Só que, com Trump, para além das mentiras serem mais abertas e descaradas, e de serem mais intensas e em maior escala do que se tinha assistido recentemente, as auto-contradições e os desmentidos a que vão dando lugar, para além de baralharem os adversários políticos, ameaçam através da sua política de terra queimada do significativo e mesmo do significado impossibilitar o próprio debate político.

Para além disto, a sua vitória é também espantosa porque sinaliza uma mudança radical de estilo retórico. Contrastando com Obama, talvez o melhor retórico tradicional a ocupar um lugar cimeiro na política internacional na história recente, Trump poderia parecer à partida ineficiente. Onde os especialistas da comunicação política aconselham clareza, surge um orador pouco claro, perdendo-se em digressões sobre digressões que parecem comprometer o próprio sentido da mensagem que procura transmitir. Porém, a vitória do orador confuso confunde sobretudo quem se restringir ao preconceito racionalista. Trump revela-se mestre na arte da sugestão: as suas associações parecem infantis (como o caso da repetição insistente da fórmula “crooked Hilary”) mas ficam na cabeça; as suas frases são incompletas mas não perdem eficácia porque são preenchidas pelo auditório com as emoções que ele soube antecipadamente despertar; o seu estilo conversacional é feito abertamente de truques baratos de vendedor mas consegue gerar uma intimidade desarmante nos seus apoiantes.

E, tal como o comportamento do orador, o conteúdo da sua retórica apresentou-se igualmente blindado à informação contrastante ou a qualquer nível de contra-argumentação. Desta forma, foi escapando por baixo a todas as críticas que lhe eram feitas, deslocando o centro de gravidade da disputa hegemónica. As tentativas de combatê-lo desvalorizando-o ou satirizando-o não funcionaram: o ridículo de fazer os mexicanos pagar o muro por si proposto ou o significante vazio do slogan “Make America Great Again” impuseram-se pela sua base manipulatória, emocional e agressivamente básica. Até a bazófia “Trump l’oeil” da defesa dos interesses dos trabalhadores conseguiu impor-se triunfalmente o tempo suficiente para que o “presidente anti-sistema” conseguisse formar um governo de multimilionários representantes do pior lobbysmo.

Nethegemonias

E é na tentativa de compreender como algumas destas ideias fizeram um caminho aparentemente tão descontraído que entra o segundo eixo de análise que se tem focado nas novas tecnologias de consensualização. “Novidades” como o papel dos algoritmos do motor de pesquisa mais utilizado e da rede social mais frequentada, o papel das quintas de cliques e das fábricas de falsas notícias podem até estar a ser exageradas nesta situação particular mas impor-se-ão doravante como peças relevantes nos futuros debates sobre as formas de criação de senso comum político, à medida em que se acentua a tendência para o crescimento do número de pessoas que acedem a notícias e opinião política online dando mais peso ao quase monopólio que o motor de pesquisa da Google e o Facebook têm como formas de mediação do acesso à internet para largas camadas da população.

Assim, o acesso à informação surge tanto como personalizado (transmitido “directamente” pelos nossos pares, pesquisado nos termos que escolhemos e feito através das plataformas que escolhemos) quanto até como imediato (já não teríamos de nos restringir às temporalidades e limites de um punhado de meios de comunicação). Só que esta ilusão torna-nos mais vulneráveis à força escondida da mediação tecnológica corporativa.

Os algoritmos que decidem prioridades de acesso a informação são apresentados como sendo supostamente neutros ideologicamente mas o que a experiência nos mostra é que estes filtros enviesam inevitavelmente a diversidade de mundivisões num sentido determinado. O caso da pesquisa com o Google é sintomático: aqui e aqui pode-se ver como as sugestões do Google não só descartam na prática opções e induzem a visitar certas páginas como até nos trazem discursos de ódio à boleia das sugestões supostamente mais populares. E o que é verdade para a inclinação à extrema-direita nas pesquisas em inglês também o é no caso do português: fazendo uma experiência semelhante em Portugal e escrevendo algo como “os muçulmanos são” surgem-nos automaticamente as alternativas “descendentes de quem”, “terroristas”, “maus” e “judeus”. Carregando, por exemplo, em “terroristas” entramos directamente na fachoesfera mais violenta.

Do mesmo tipo de enviesamento tem sido acusado o Facebook que igualmente se tem escudado na neutralidade do seu algoritmo para justificar que páginas sem o mínimo de credibilidade tenham sido promovidas a fontes quase-oficiais de informação para milhões de pessoas. O desenho desta rede social, ao fazer de um reforço imediato “positivo” a sua principal característica vai condicionando o utilizador enquanto produtor de conteúdos às fórmulas que assegurem mais sucesso rápido. Por outro lado, circulando concorrencialmente o mais clicado/visualizado, este modelo vulnerabiliza o utilizador enquanto consumidor de conteúdos exacerbando tendências que se sentiam há muito no tempo da televisão: um fluxo imediatista sem memória nem contexto e um apelo permanente à emoção e comoção circunstanciais reproduzíveis em cadeia.

Mas, para além do desenho desta plataforma, é seu próprio modelo de negócio que está em causa: ocultando dos “murais” por configuração um volume imenso da informação que lhe é disponibilizada, a rede social gera a “necessidade” de pagar destaques criando, a partir de uma situação de igualdade aparente na troca, o que é afinal um território de infopublicidade em que ganha quem investe mais, reforçando assim tendencialmente poderes instituídos. E o mesmo se poderá dizer, evidentemente, dos destaques pagos no Google.

Entre o poder do dinheiro e o poder do tremendismo, o direccionamento para páginas “marginais” em vez das fontes jornalísticas e de informação legítimas do ponto de vista do status quo hegemónico não deve incomodar apenas os anteriores donos da verdade que se sentem ameaçados pela democratização fascizante da produção de “pós-verdades” nem tem de ser feito nos estreitos limites da tentativa de relegitimação do exclusivismo dos grandes grupo económicos enquanto produtores de conteúdos infopolíticos. Trata-se, por outro lado, de entender as falácias das utopias que apresentavam a internet como suposto instrumento perfeito de produção e partilha livre de saberes para combater a manipulação aberta feita num campo de batalha de ideias fortemente armadilhado. Porque o rumor, a desconfiança e a desinformação fascista têm mostrado saber viver como peixe na água num mundo clickbait.

Este poder do cliquismo que fomenta o crescimento de alguns tipos de ideias aparentemente de forma espontânea é também a razão de ser do negócio paralelo e obscuro que surge associado às redes sociais: as “quintas de cliques”. Operários do clique altamente explorados e vivendo do outro lado do mundo (muitos do sudeste asiático) terão assim trabalhado ironicamente para promover a eleição de um político que se apresentava como nacionalista e proteccionista nos EUA. Trump foi eficaz neste investimento e há quem diga que isso pode até ter feito a diferença. Aliás, o propalado patriotismo de Trump choca igualmente com a informação de que apenas 42% dos seus seguidores no Facebook eram de facto de origem norte-americana sendo a maioria de países em desenvolvimento provavelmente provenientes destas quintas. Se assim o era na página principal da campanha, muito mais o terá sido nas inúmeras páginas derivadas.

Das velhas mentiras às novas fábricas

Daí que não se possa ensaiar a análise das formas como se desenrola a disputa hegemónica na era digital sem, para além das especificidades dos programas de cada uma, olhar com atenção para as desigualdades resultantes da divisão internacional do trabalho digital e para a internet como espaço maioritariamente apropriado pelo capitalismo. Até porque, para além dos patrões destes trabalhadores desqualificados, outros atores oportunistas espreitam para aí introduzirem os seus negócios: as fábricas de mentiras são a expressão acabada desta tendência situando-se num terreno pantanoso entre o negócio e a manipulação política. O seu sucesso nas eleições presidenciais norte-americanas foi tal que as notícias falsas teriam sido mais divulgadas nas redes sociais do que as notícias reais. Tornou-se famosa a história dos jovens macedónios que geriam sites pró-Trump (uma única cidade, Veles, tinha mais de 140 sites destes) motivados apenas pelo dinheiro da publicidade nas páginas (já que Trump rendia mais do que Clinton). Um pouco menos conhecidas são as histórias dos mercenários políticos que apontaram para as eleições dos EUA como alvo preferencial para alterar as relações de forças na política internacional. É o caso do “nacionalista” inglês que gere várias páginas “patriotas” norte-americanas. Uma das notícias que promoveu “revelava” o satanismo de Hillary e pode ser utilizada como exemplo das proliferantes alegações nonsense que alcançaram centenas de milhares de partilhas. Tal como foi também o caso da absurda e muito divulgada teoria da conspiração de que Hillary comandaria um grupo de abusadores sexuais de crianças a partir de uma pizzaria (história que despoletou um tiroteio cometido por um crédulo na demanda de libertar as imaginárias jovens vítimas do clintonismo).

Obviamente, tal como o exagero caricatural e a teoria da conspiração não esgotam o espectro das mentiras (histórias mais verídicas, como a de que o Papa apoiaria Trump, também foram recordistas de visualizações e partilhas durante a campanha eleitoral fazendo da sua verosimilhança um factor de influência) também o exclusivo da produção de mentiras não se encontrará apenas nas mãos de oportunistas em busca de lucro fácil ou das franjas políticas mais extremistas dentro e fora dos EUA. Os próprios profissionais responsáveis pelas campanhas não se costumam coibir de fabricar mentiras e disseminar rumores sobre os seus adversários se bem que habitualmente o tenham feito de forma mais clandestina, preocupados com o que o jogo sujo poderá fazer ao bom nome do seu candidato. Podendo, aliás, até os governos não vão deixar de o fazer: as alegações que as mais perigosas fábricas de mentiras foram apoiadas pelo governo de Putin (e tal como o foram nos EUA também o estariam a ser um pouco por toda a Europa) são agora abertamente debatidas pelo mainstream comunicacional norte-americano.

É assim que chegamos ao ponto em que, ao lermos alguma da imprensa norte-americana anti-Trump que se tem exaltado sobre isto, ficaremos com aquela estranha sensação de ser necessário lembrar o óbvio aos especialistas: o boato tem sido uma arma política ancestral e a propaganda que força verdades e espalha mentiras nunca deixou verdadeiramente de ocupar um lugar importante no palco da política: do artesanato do boato espalhado boca à boca, à circulação mais industrial da imprensa sensacionalista, até à rapidez da era digital que nos chegava até há bem pouco tempo através das cadeias de e-mails (quem em Portugal não se lembra dos boatos sobre a vida sexual de José Sócrates a invadir as suas caixas de correio electrónico?). As mudanças de infraestrutura comunicacional da produção das mentiras ocasionarão adaptações estilísticas mas olhando para as teorias da conspiração prevalecentes encontraremos motivos perenes.

No caso da política norte-americana, é preciso também não esquecer que a credulidade face às teorias da conspiração e a política do rumor têm sido tradições conservadoras (de que as famosas armas de destruição massiva no Iraque ou a teoria de que Obama seria afinal estrangeiro são apenas a face mais recente, impactante e visível) mas que esta área política não detém nem de perto nem de longe o exclusivo neste campo. Contudo, ao descrédito da política liberal e dos meios de comunicação social tradicionais soma-se o surgimento de cadeias de televisão como a Fox, militantemente muito à direita e que naturalizou a relação entre noticiários e propaganda política, criando um caldo cultural no qual a circulação de notícias falsas de pendor direitista floresce.

Portanto, convém não falar “descoberta” das fake news como se estivéssemos a falar da invenção da roda mas convém igualmente, por outro lado, não menorizar o que introduz de novidade nomeadamente: um regresso à superfície da política submersa das mentiras e boatos que contrasta com as aceitáveis “inverdades” e “omissões”; o desafio que colocam aos grandes meios de comunicação social; o dano na auto-imagem dos sistemas demo-liberais como reinos da escolha cidadã bem informada e da política como campo da argumentação racional; a rapidez e facilidade de disseminação em larga escala a partir (supostamente) de baixo ou de centros múltiplos e anónimos.

Aliás, o destino do conceito ligar-se-á à manutenção do fenómeno que nomeia e das tensões que lhe são subjacentes e mesmo ao seu poder explicativo do resultado destas eleições.

O repentino sucesso do conceito (de face oculta da política as fábricas de mentiras passaram a explicação guarda-chuva) deveu-se a espelhar tensões que são fruto de contendas hegemónicas cruzadas de curto e de médio prazo: este tem servido simultaneamente para a imprensa tradicional lamentar a perda de influência e colocar em causa as empresas dominantes da era digital; para os liberais justificarem o que lhes parecia incompreensível (que uma candidata em que apostavam tanto tenha perdido para uma figura tão improvável como Trump); para estes mesmos actores começarem a atacá-lo fortemente colocando em causa a justeza da sua eleição reforçando a tese da interferência; só que também tem servido para um contra-ataque eficiente da direita republicana passando a rotular tudo o que passa nos meios de comunicação “liberais” de fake news, passando o conceito a fazer ricochete, saturando o seu uso e tentando assim inutilizá-lo.

O sucesso do conceito dependerá ainda da narrativa que se impuser sobre estas eleições e, nesse sentido, é importante o debate sobre a sua capacidade de influência na mudança de crenças e de atitudes políticas. Se tem havido uma onda de diabolização das fábricas de falsas notícias como um poder secreto e profundo que urge erradicar, há, por outro lado, quem se esforce por desvalorizar a sua influência por acreditar que estas servem apenas para reforçar convicções de quem já está convencido e não para convencer outras pessoas (o seu papel seria portanto consolidar uma mundivisão estabelecida alimentando-a com os factos falsos adequados) ou como forma de entretenimento político (e assim o seu sucesso nas redes sociais diria mais respeito à sua faceta de espectáculo do que ao seu aspecto argumentativo não estando por isso em causa acreditar nos falsos factos em si) . Assim, em ambos os casos, o problema central estaria sempre a montante das fábricas de mentiras.

E, principalmente, o sucesso do conceito dependerá da manutenção do próprio fenómeno. Os mais crédulos asseguram que este ficará controlado dadas as medidas que o Facebook, inicialmente renitente em agir mas depois obrigado pela pressão da opinião pública a fazê-lo, implementou: a promoção da sinalização das falsas notícias, a criação de modelos de verificação de factos e a limitação a possibilidade de promoção paga destas notícias medida que o Google também seguiu.

Contra-hegemonias e pauzinhos na engrenagem

Contudo, na época da crise da política e da política da crise persistem todas as condições materiais e imateriais para que esta arma continue a fazer parte dos jogos políticos.

Em primeiro lugar, dentro dos EUA. Com a vitória de Trump, tudo indica que o seu estilo de mentira, que se alia muito bem ao fenómeno das fábricas de mentiras, saia reforçado como política de Estado. O paradoxo do mentiroso sincero encontra-se com o paradigma do desconfiado crédulo (aquele que desconfia de tudo o que venha do mainstream mas está disposto a confiar nas narrativas mais bizarras que se lhe oponham desde que tenham aura de resistência aos poderes estabelecidos e que confirmem os seus preconceitos...). E, para além de todas as condições sociais, políticas e do panorama mediático, soma-se-lhes a destruição do sistema público de educação, o crescimento do fanatismo religioso e o ataque sem quartel à ciência que se agravarão.

Em segundo lugar, no resto do mundo ocidental. Seria cómodo descartar as fábricas de mentiras como fenómeno próprio da bizarra cultura política americana. Só que temo-las visto operar descaradamente noutros cenários como, por exemplo, promovendo o golpe de Estado que destituiu Dilma Rousseff (quem não souber quem esta personagem é pode pedir ajuda às sugestões do Google e ficará a saber que... se trata de uma corrupta terrorista e lésbica que ocupou ilegitimamente a Presidência do Brasil). E mesmo na civilizada Europa as fábricas de mentiras da extrema-direita têm-se revelado produtivas na invenção de rumores com um claro programa islamofóbico e anti-refugiados. São a outra face do crescimento do “populismo de direita” clean, da “alt-right” ou de qualquer outro eufemismo que se queira utilizar para designar as novas forças da extrema-direita. Junto com os atentados que vão acontecendo no centro da Europa, estes rumores tornam-se combustível lançado para a fogueira dos racismos e nacionalismos que, apesar de sempre se ter jurado um continente de tolerância, arderam sempre em lume brando no coração da Europa.

Se as fábricas de mentiras têm poder para criar comoções que desequilibram a política talvez possam ser o pretexto para reavaliarmos a imagem cândida e apaziguadora que nos vendem sobre a democracia liberal: um reino iluminista de paz social povoado de cidadãos conscientes que escolhem entre ideias que concorrem de forma justa no mercado eleitoral, que foram formados por uma escola neutra e que são informados por uma comunicação social livre porque empresarialmente dominada e auto-controlada pelo paradigma de uma neutralidade feita de critérios jornalísticos objectivos. Ou seja, a narrativa liberal de que as falsas notícias perturbam o mundo perfeito da política anteriormente existente não é consistente. Para resolver esta desadequação, o mais fácil tem sido culpar as vítimas. O exército bem-pensante esforça-se por assegurar que os “populismos” e as suas fake news estariam em crescendo apenas porque a populaça seria estúpida apesar de ter todos os instrumentos ao seu dispor para um comportamento mais racional. A democracia liberal seria boa, o único problema seria o povo.

Há que ir por outra via. É preciso compreender que a política é enviesamento para o lado dos poderosos que estão bem equipados para a guerra das ideias. Este enviesamento pode passar por técnicas tradicionais: o apagamento e o silenciamento que fazem desaparecer o adversário político e/ou a depreciação, o rumor maldoso, a caricatura desumanizadora que o marcam como anormal ou inferior. Mas o enviesamento pode passar por técnicas mais recentes: no mundo da sobre-exposição mediática, a censura não faz sentido, a proliferação de discursos políticos tem tendência a anulá-los, não se prendendo a atenção em nenhum. Pode-se deixar-lhes as suas páginas na internet ou até um espaço no jornal ou mesmo uns segundos na tv assim se comportem segundo os códigos mediáticos vigentes e assegurem as audiências. Contudo, é preciso saber fazer uma escolha selectiva dos momentos e palcos certos para os comentadores e editorialistas fiéis atuarem esmagando as alternativas possíveis. É preciso que os técnicos se consigam sobrepor aos políticos explicando o que tem de acontecer inevitavelmente por força da realidade (sejam os mercados ou outra força qualquer). A menorização substitui o apagamento com vantagens pela sua aparência democrática.

O enviesamento do poder passa pela comunicação social dominante que está nas mãos de grandes grupos económicos e por isso é tudo menos neutra nas disputas sociais, os seus conteúdos, criados ou replicados à pressa por jornalistas ameaçados pela precarização, estão as mais das vezes marcados por essa chantagem constitutiva. Os novos poderes digitais que também fazem parte da paisagem hegemónica combinam-se com estes. Alguns passaram quase imediatamente de novidades a formas quase arcaicas de discussão política: os bloggers pagos para induzir opinião (só que a influência dos blogues políticos entrou em declínio), as legiões de trolls pagos para habitar nas profundezas das caixas de comentários de jornais e/ou nas redes sociais de forma a fazer o combate sujo (apesar de pouca gente lhes prestar verdadeiramente atenção), os falsos perfis (apesar de serem geralmente pouco convincentes). É a este tipo de universo que as fábricas de mentiras pertencem. E o seu conteúdo bafiento é a reabilitação de velhos temas fascistas que actuam em benefício dos poderosos desarmando os subalternos: os bodes expiatórios dos mais fracos, a construção identitária de um sujeito normalizado contra os invasores, os incidentes criados para despertar uma falsa indignação que se quer aparentar anti-sistema, todos os ingredientes que resultaram em catástrofe.

Uma política contra-hegemónica deve opor-se simultaneamente aos velhos poderes e aos novos fascismos. No tempo das falsas notícias, há que reinventar uma educação pública forte sem cair nos mitos educacionais de que a escola republicana todo resolveria: é precisa literacia para os media, educação cívica, promoção do pensamento crítico, mas tal não é suficiente já que a escola não vive separada do resto da sociedade.

No tempo das falsas notícias, é preciso criar instrumentos de comunicação e opinião alternativos. Tirando as batalhas de blogues, um mundo muitas vezes elitista e que rapidamente se fechou sobre si próprio, a esquerda tem falhado recentemente em criar esses instrumentos: tal como falhou ao encontro de um grande jornal de esquerda que pudesse contrariar a influência esmagadora da direita e dos interesses capitalistas, tem falhado ao encontro de sites de referência não partidarizados e com influência de massas.

No tempo das falsas notícias, é preciso mobilizar e organizar. A força comunicativa só será eficaz para enfrentar estes tempos difíceis que vivemos se vier acompanhada dos laços de confiança organizativa e da experiência de construção de sujeitos políticos colectivos participados que impedem as mentiras de circularem. Há pois que quebrar a atomização das vivências e a perda do sentido da militância política, que construir consciência de classe capaz de responder criativamente às frustrações face à exploração económica e à impotência face à política dominante que são a matéria-prima das fábricas de mentiras de todos os tempos. Para nos opormos às fábricas de mentiras precisamos ser trabalhadores da contra-hegemonia apostados em construir uma contra-hegemonia dos trabalhadores.

Sobre o/a autor(a)

Professor.
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