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O “Uncle Sam” e a crise!!

A crise das últimas semanas, embora as perspectivas económicas do “Uncle Sam” sejam de recessão para o próximo ano, foi uma crise política que se reflectiu nos mercados e não o contrário.

A política Americana atravessou, nas últimas semanas, momentos complexos. A falta de entendimento entre Democratas e Republicanos na Casa dos Representantes e no Senado, levou à ameaça de incumprimento da dívida externa Americana e o “downgrade” da agência de rating Standards & Poors veio agitar ainda mais os Americanos que, discutem agora uma possibilidade séria de recessão em 2012. Mas esta instabilidade, na verdade, teve muito pouco de “económico” e o que esteve na sua base foi uma crise política entre os dois partidos da governação.

Barack Obama esteve no último ano pressionado a efectuar cortes na despesa pública Americana, face ao elevado défice orçamental. Obama não hesitou e, contrariamente à onda de esperança e às expectativas de uma mudança de política à esquerda que estiveram na base da sua eleição, elaborou um programa de contenção com cortes radicais nas despesas de educação e saúde. O programa Medicaid & Medicare, que é a assistência em saúde para os mais pobres e para os idosos era um dos principais prejudicados com e plano inicial do presidente. Muitos outros programas sociais eram fortemente penalizados, numa tentativa de reduzir em alguns triliões de dólares os gastos do governo federal. Mas Obama foi ardiloso e conseguiu incluir no seu projecto orçamental uma medida extraordinária pelo seu carácter progressista: aumentar os impostos de uma forma quase exponencial em relação aos rendimentos, que é dizer aumentar muito os impostos aos mais ricos e muito pouco aos mais pobres. Foi esse o seu princípio de batalha para a discussão que se seguiu.

No lado oposto, os Republicanos contra-atacaram acusando Obama de “timidez” no corte da despesa e opondo-se violentamente ao aumento dos impostos. Convém dizer, nesta altura, que o partido Republicano atravessa uma fase muito complicada. Após a eleição de Obama, o vazio na sua liderança permitiu o surgimento de um grupo político novo dentro do partido – o “Tea Party”. Este não é mais do que uma facção de direita extremista, que se faz anunciar publicamente no meio da histeria dos seus porta-vozes, como a Sarah Palin ou Christine O’Donnel – uma fundamentalista católica de Delaware, que passou os últimos 20 anos numa campanha nacional contra a masturbação… - e cujo motivo que une este ajuntamento é o ódio a Barack Obama, ao Estado, aos programas sociais e aos impostos sobre as grandes corporações. É o Tea Party que tem dominado a oposição a Obama e que nas sondagens junta já a simpatia de 20% dos Americanos. Foram as vozes do Tea Party que lideraram a recusa Republicana em aumentar o tecto da dívida pública, procedimento que tem sido quase “automático” nos últimos 30 anos mas que agora a direita Americana resolveu usar como chantagem sobre o orçamento.

Como Obama precisava de aprovação na casa dos representantes para aumentar o limite da dívida, onde os Republicanos têm maioria, essa foi a razão pela qual foi necessário chegar a um entendimento entre os 2 partidos, caso contrário, o governo federal Americano entrava em incumprimento. O acordo anunciado no início de Agosto foi no fundo uma grande desilusão para o “povo de Obama” pois deixou por terra a mais ambiciosa e justa proposta de aumento de impostos dos últimos anos. No fundo as escolhas do Presidente foram de cautela, ou seja, aceitar a chantagem dos Republicanos para evitar uma crise financeira cujas consequências se iriam reflectir em 2012, ano da sua reeleição. Esta atitude no fundo, é a continuação daquilo que tem sido a presidência “Obama” – cedência em relação a tudo aquilo que é polémico e que pode provocar danos na sua “imagem” junto dos Americanos, com vista a preservar as suas potencialidades para mais 4 anos à frente da casa branca. Assim o foi na reforma dos cuidados de saúde, assim o foi na guerra do Iraque e Afeganistão. E os Republicanos, dissolvidos entre a histeria do Tea Party e a falta de liderança, aproveitam para vandalizar a política federal, chantageando o presidente. Por isso a crise das últimas semanas, embora as perspectivas económicas do “Uncle Sam” sejam de recessão para o próximo ano, foi uma crise política que se reflectiu nos mercados e não o contrário.

Bruno Maia, em Nova Iorque

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