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Não vás ao cinema em dia de greve

Mas vai ver 'Inside Job' assim que puderes. Uma lição impressionante sobre o poder do capital.

'Inside Job', de Charles Ferguson, é um documentário de choque. É certo que as entranhas da crise financeira foram já expostas com muita verdade em vários momentos e lugares. Mas 'Inside Job' é uma viagem de precisão à promiscuidade entre política e negócios e à sua vocação criminosa, patente na forma como foi possível criar uma bolha financeira que devolveu à pobreza 50 milhões de pessoas.

Está lá tudo, organizado de forma cronológica, com os gráficos certos e incríveis depoimentos dos "insiders", milionários que fizeram as opções erradas para o mundo. 'Inside Job' arranca nos alvores da contrarevolução liberal, com Ronald Reagan e a desregulação do sector financeiro, o acesso da banca de depósitos às aplicações de alto risco, os negócios deliberados - Citigroup, JP Morgan, Merril Lynch - com o tráfico de armas, drogas e investidores como Augusto Pinochet. O filme relembra a bolha da internet e o caso Enron, demonstrações precoces da irracionalidade, do potencial destrutivo e do impacto social dos delírios da Bolsa.

Ao longo de 'Inside Job', uma figura volta sempre ao ecrã: Larry Summers, secretário do Tesouro de Bill Clinton, depois presidente da Universidade de Harvard, hoje principal conselheiro económico de Obama. Com outros expoentes do sistema bipartidário Democrata-Republicano, como Alan Greenspan, presidente do banco central, Summers atravessa todo o período de reformas desreguladoras que permitem a bolha. Esses responsáveis negam-na, enquanto a vêem crescer. Porquê? Porque a par dos créditos tóxicos e da alavancagem dos bancos (que em alguns casos atinge 1 dólar em caixa para cada 33 concedidos em crédito), aumentam os bónus estratosféricos e a transferência de riqueza em direcção à nata dos 1% mais ricos da sociedade norte-americana. Assim foi sob Clinton e Bush, assim continua a ser sob Obama.

Ao longo do tempo em que a bolha cresce, governantes e banqueiros vão negando a catástrofe eminente, da qual têm plena consciência: foram avisados com todas as letras, directamente, por muitos especialistas também ouvidos em 'Inside Job' (Ragan, em 2005; Roubini, em 2006, entre outros). Sabem bem o que fazem e fazem o querem. Na corrida para o abismo, comanda-os a ganância absoluta e a noção (correcta, como o filme mostra) da impunidade. É assim que, antes do início das falências, muitos vão vender o seu lixo-ainda-ouro, realizando centenas de milhões de dólares, intocados até hoje. Uma das virtudes que fazem deste 'Inside Job' um filme extraordinário é ter conseguido acesso a vários destes responsáveis, entrevistados em pessoa e confrontados até ao silêncio pelas perguntas mais singelas.

O filme termina com o retrato da devastação em que a crise financeira traz a economia mundial de 2008 até agora. Só nos Estados Unidos e até 2010, seis milhões de casas arrancadas a proprietários insolventes, mais nove milhões em perspectiva. Mas, ainda antes, o filme percorre o mundo da elite académica, a colonização das direcções das mais sofisticadas universidades pelos homens e mulheres dos grupo financeiros, os mesmos que têm lugar marcado nos órgãos consultivos de governo. Em questão, o conflito de interesses entre a investigação sobre "os mercados" e a sua orientação política e empresarial. Tema urgente, ou não fosse a convicção com que hoje inúmeros "especialistas" nos vendem as respostas recessivas à crise exactamente a mesma com que no passado nos venderam as loucuras financeiras que a geraram. 

Último apontamento: 'Inside Job' não é um filme militante. O seu autor é Charles Ferguson, cuja carreira começou como consultor em tecnologias de informação de várias estruturas de governo, nos anos 90. Foi a sua empresa que desenvolveu a ferramenta FrontPage, vendida à Microsoft em 1996 por uns 133 milhões de dólares. 'Inside Job' é "apenas" um filme rigoroso, que estuda o que aconteceu e a forma de o tornar compreensível por qualquer pessoa. É o que basta para ser chocante.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e dirigente do Bloco de Esquerda. Jornalista.
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