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A mercantilização da ciência pela FCT

Com mais uma inflexão neoliberal, acentua-se o declínio da pesquisa fundamental em Portugal.

A Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), que tem como uma das suas atribuições o financiamento de investigações em diversas áreas do saber, parece ter delineado um novo percurso, privilegiando quase exclusivamente a ciência aplicada em detrimento da ciência fundamental. Este cenário configura um retrocesso sem precedentes no fomento ao conhecimento livre e desinteressado, essencial para o avanço e equilíbrio do sistema científico. Esta situação veio acender os alertas na comunidade científica que tem elevado a sua voz contra essa decisão unilateral da FCT, desencadeando uma onda de preocupação e descontentamento.

A relegação da ciência fundamental a um plano secundário empobrece o tecido científico nacional, limita seriamente a capacidade da ciência portuguesa de contribuir para o progresso global, torna a ciência refém de interesses imediatistas e eclipsa a importância da pesquisa básica para a ciência aplicada e o próprio avanço tecnológico e social, tornando a nossa capacidade de inovação ainda mais refém do conhecimento gerado por outros. Sem ciência fundamental a inovação torna-se desprovida de revoluções conceptuais que podem ser transformadoras.

O apelo por uma política científica que valorize todas as formas de conhecimento, não é apenas um grito por justiça e inclusão das diversas áreas científicas, é uma defesa da própria integridade e essência da ciência. Esta tem sido colocada em causa por políticas científicas onde o mercado surge como árbitro do financiamento científico e que seguem modas que podem bem ser passageiras. As nefastas consequências da priorização da ciência aplicada são várias. Vislumbra-se a redução da diversidade científica derivada da mercantilização da ciência, fomentada e legitimada pelo próprio Estado, onde o valor do conhecimento é medido em termos de potencial lucro ao invés da sua contribuição para o avanço do conhecimento, da cultura ou do bem-estar social. Tal abordagem cria desigualdades, favorecendo-se instituições e investigadores que se concentram, em áreas de maior potencial de comercialização, enquanto outros, dedicados à ciência fundamental, lutam por recursos.

Priorizar a ciência aplicada reflete ainda uma visão totalmente imediatista que ignora que muitos dos maiores avanços tecnológicos provieram da investigação básica, sem uma aplicação imediata à vista. Este é um traço característico do pensamento neoliberal, focado em ganhos e eficiências a curto prazo. Defender a ciência fundamental é um pilar irredutível na construção de uma sociedade mais justa, informada e preparada para os desafios futuros. A ciência deve ser um bem comum, um território livre para a exploração do saber em todas as suas dimensões. Este é um momento decisivo para a ciência em Portugal, e a sua defesa passa por uma mobilização conjunta em prol de um financiamento equitativo que reconheça o valor intrínseco da investigação fundamental.

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Professor universitário
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