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Menos lounges, mais cabeças pensantes

A Nova SBE procurou transformar-se numa marca, numa imitação de um modelo anglo-saxónico falhado e amputador do livre pensamento. A “marca” passou assim a uma mera farsa, não por repetição, mas por imitação.

Às vezes não é necessário que a história se repita para que se torne uma farsa. Basta ser mal imitada. Quando, há três anos, a Universidade Nova de Lisboa ou, mais especificamente, a sua faculdade de Economia, decidiu mudar de “marca” e de campus, foram angariados cerca de 50 milhões de euros para a obra. Isto sem contar com o terreno que foi - generosamente – cedido pelo Município de Cascais. A nova “marca” passou a ser a tempo inteiro efetivamente isso, uma marca e, apenas a tempo parcial, uma faculdade de economia.

A nova “marca” passou a ser a tempo inteiro efetivamente isso, uma marca e, apenas a tempo parcial, uma faculdade de economia

No dia 2 de julho, a revista Sábado publicou um artigo onde expunha uma alegada situação de censura – ou sua tentativa pelo menos – a uma professora catedrática por parte da sua própria instituição. O conselho restrito de 14 catedráticos – 12 homens e 2 mulheres, o que não faz, de todo, maravilhas pela igualdade de género – deliberou sobre a legitimidade de alguns professores da instituição assinarem artigos ou peças de opinião na qualidade daquilo que efetivamente são: professores da instituição, e destes textos ou participações serem divulgados pelas redes oficiais da faculdade.

Tudo porque, segundo alguns catedráticos afirmaram e foi relatado pelo artigo da Sábado, tal “torna difícil a gestão da marca Nova SBE”. Estranho mundo académico este, onde os centros de ensino e aprendizagem não são mais que uma mera “marca”. A professora em questão também respondeu à Sábado que continuaria a assinar os seus artigos de opinião como professora da instituição uma vez que, nas palavras da própria, “é o que sou”.

Tudo isto não passaria de um mal-entendido relativamente inofensivo se não fossem as pessoas em questão e o “mecenato” que tornou possível a construção do novo campus. Comecemos pela hipocrisia das pessoas envolvidas: o professor Manuel Nogueira Leite, com assento neste conselho restrito é o mesmo que assina artigos e ensaios no jornal online Observador na qualidade de, veja-se bem, professor na Nova SBE. O mesmo se pode dizer do próprio reitor, Daniel Traça, que assina artigos de opinião no Jornal Negócios na mesma qualidade de professor na Nova SBE.

Mera hipocrisia? Até agora sim. No entanto, segundo a Sábado, estes professores acumulam funções de diretores não-executivos nas empresas EDP renováveis e Santander, respetivamente. Mais longe ainda, segundo a fonte da Sábado, Daniel Traça afirmou que recebeu telefonemas de stakeholders – o nome usado para indicar o que se tem vergonha de dizer em voz alta - sobre as opiniões expressadas pela professora Susana Peralta em relação a algumas empresas como a TAP ou a EDP. Daniel Traça, de facto, afirma que recusou qualquer intromissão da faculdade na liberdade de expressão dos seus professores. No entanto, o mero facto de um “stakeholder” se sentir no direito de efetuar tal telefonema mostra bem como é que os mecenas bem feitores encaram a sua participação das instituições de ensino superior.

o mero facto de um “stakeholder” se sentir no direito de efetuar tal telefonema mostra bem como é que os mecenas bem feitores encaram a sua participação das instituições de ensino superior

Afinal parece que a autonomia responsável das mesmas face ao ministério da educação serve, também, como um empurrão para os braços do capital e do poder económico. Quem diria que o “mecenato” afinal, prova a velha máxima do “Não há almoços grátis”.

Num círculo mais alargado de professores da instituição que assinam espaços de opinião e comentário da mesma forma, temos também Paulo Portas no seu espaço de comentário semanal na TVI e Laurinda Alves, nos seus artigos e podcasts para o Observador.

No fundo, a Nova SBE procurou transformar-se numa marca, numa imitação de um modelo anglo-saxónico falhado e amputador do livre pensamento – o que, na área de economia, dá azo a este tipo de situações. A “marca” passou assim a uma mera farsa, não por repetição, mas por imitação.

Sobre o/a autor(a)

20 anos. Aluno do 3º ano da licenciatura em Economia da Nova SBE. Membro do Bloco de Esquerda
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