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Mais uma vez os Rankings

Não serve de muito constatar as enormes disparidades, estas também sociais, dentro das escolas públicas, sem que se dê um apoio maciço às escolas públicas com maiores dificuldades.

É uma conversa com 20 anos, todos os anos a divulgação dos rankings das escolas leva ao mesmo tipo de discurso vindo dos mesmos locais.

As escolas privadas e os defensores da “iniciativa privada” gabam a superioridade do ensino privado. Todos sabem como isso acontece, pelo lado mais claro e honesto, pela diferenciação social dos alunos, mas, em alguns casos, e há um lado menos claro e honesto, com inflação das notas internas. Apesar de tudo, estamos no campo da normalidade. Iremos às consequências mais à frente.

Mais hipócrita é o discurso oficial que reconhecendo todos os problemas dos rankings acaba por fazer o seu jogo. Não serve de muito defender as virtudes e o trabalho da escola pública quando depois não se faz nada para que as escolas públicas tenham melhores condições. Não serve de muito constatar as enormes disparidades, estas também sociais, dentro das escolas públicas, sem que se dê um apoio maciço às escolas públicas com maiores dificuldades.

Sabemos, e o ministério também sabe, que não há igualdade de oportunidades possível entre os alunos daqueles colégios com nomes de santos no centro de Lisboa e os alunos que vivem em bairros degradados e frequentam escolas tão degradadas como os bairros em que vivem, como por exemplo na Trafaria. O ministério sabe, mas não faz nada, essa é a medida da hipocrisia.

Uns correm com bons ténis em pistas de tartan, outros vão descalços por caminhos pedregosos. Toda a gente sabe que é esse o problema, o Ministério admite-o, mas dessa admissão à ação vai uma distância que não quer transpor. A verdade é que o Partido Socialista não quer diminuir as desigualdades sociais, esta é uma prova.

Mas temos uma outra questão não menos importante. O próprio sistema educativo, nomeadamente um ensino secundário cujas médias servem essencialmente para entrar na universidade, está feito em função destes rankings. Uns e outros estão perfeitamente ajustados. É um ensino mais pensado em função da seletividade do que da democraticidade, do conteúdo demonstrável num exame, do que da verdadeira aprendizagem. Os rankings servem este modelo perfeitamente, não vale a pena virem os ministros PS (desde Lurdes Rodrigues) negá-lo e desvalorizá-lo.

Estamos apenas perante a demonstração da seletividade e falta de equidade do sistema educativo português, num sistema que vem dos primeiros governos do PS e que se foi consolidando. Nos tempos de maior dificuldade de acesso ao ensino superior público dizia-se que o ensino superior privado estava cheio dos filhos dos mais pobres, a pagar propinas milionárias por cursos de má qualidade, enquanto os filhos dos mais ricos conseguiam entrar no ensino superior público com melhor qualidade e propinas mais baixas. A situação hoje é diferente, mas é muito clara a seletividade social de acesso a cursos onde é necessário ter médias muito altas. Os rankings são só a evidência numérica dessa perpetuação.

Este ano tudo foi pior, claro, a pandemia tornou mais evidentes as diferenças sociais no acesso ao ensino, aparentemente não contou muito para os rankings, mas também mostrou a incapacidade de resposta governativa aos problemas da educação.

Uma coisa é certa, para o ano há mais, os resultados vão ser iguais, os discursos também, nada mudará com quem nada quer mudar.

Sobre o/a autor(a)

Investigador de CIES/IUL
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