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Lutas cá e lá

Em tempos de austeridade global, a resposta popular tem assumido cada vez mais expressão nas ruas em todo o mundo. Em Portugal é fundamental exigir que a democracia não fique refém dos mercados.

Estamos em tempos de austeridade global, com o capital financeiro a comandar as políticas dos governos com vista à diminuição dos custos do trabalho pelas mais diversas formas, mas elegendo o desemprego massivo e a redução dos salários (diretos e indiretos) como alvos privilegiados na sua estratégia de acumulação de lucros e rendas.

A comprová-lo, segundo a OIT, um em cada três trabalhadores no mundo está desempregado ou vive na pobreza, o desemprego continua a crescer, os jovens são brutalmente atingidos pela crise e quase 30% dos trabalhadores vivem abaixo do limiar da pobreza (dois dólares por dia).

O aumento das desigualdades é a tendência dominante, mesmo nos países economicamente mais desenvolvidos, onde o rendimento dos 10% no topo é nove vezes superior ao dos 10% no escalão mais baixo. A desigualdade exprime-se também na tendência para a redução da parte do salário na distribuição do rendimento.

Mesmo conhecendo estes indicadores os governos não prescindem de atacar outros direitos dos cidadãos como a Saúde, Educação Pública, Segurança Social, Habitação, Transportes. No fundo querem destruir aquilo a que na Europa se dá o nome de Estado Social e noutros pontos do globo tem configuração diferenciada e nalguns casos são de menor amplitude, mas são das aspirações mais sentidas pela grande maioria das pessoas.

A acrescer a esta feia realidade, os mercados financeiros exercem a maior das chantagens e mantêm a sua força ao mesmo tempo que os paraísos fiscais não são eliminados e pelo contrário abrigam uma parte significativa da riqueza que é roubada ao trabalho, permitem uma fuga descomunal ao pagamento de impostos e uma enorme lavagem de dinheiro proveniente dos negócios do armamento, droga e da corrupção aos vários níveis.

Esta política cria enormes desigualdades e por isso mesmo a resposta popular tem assumido cada vez mais expressão nas ruas com manifestações convocadas por movimentos sociais através das redes sociais e pelo movimento sindical que alia às convocatórias de Greves Gerais a tomada das ruas, muitas das vezes em conjunto com os demais movimentos sociais.

Foi assim na Greve Geral de 27 de Junho em Portugal, que “ajudou” aos pedidos de demissão dos ministros Gaspar e Portas e à morte do governo de Passos Coelho, embora Cavaco Silva insista em arranjar estratagemas para não lhe passar a certidão de óbito, dissolver o Parlamento e convocar eleições já.

É assim na distante e desconhecida Ásia onde as lutas dos trabalhadores (ver revista A Comuna 30) se desenvolvem por direitos elementares num contexto de enormes dificuldades e de grande repressão, mas no seu âmago são semelhantes às que nós, gregos ou povos de Espanha levamos a cabo.

As Greves Gerais e as mobilizações populares realizadas no passado dia 11 de Julho no Chile e no Brasil mostram que também do outro lado do Atlântico os povos lutam e exigem melhores condições de trabalho, mudança no sistema de pensões, profunda reforma tributária para melhorar a Saúde e criar um novo sistema de Ensino sem fins lucrativos e de qualidade. Isto no mesmo dia que em 1970 foi realizada a nacionalização do cobre no Chile. É dia da Dignidade Nacional. Esta Greve juntou nas ruas trabalhadores e estudantes convocados pela CUT/CHILE e CONFECH.

No Brasil, o “Dia Nacional de Greves, Paralisações e Manifestações” foi convocado em conjunto pelas 8 Centrais Sindicais o MST (movimento dos trabalhadores rurais sem terra) e UNE (união nacional dos estudantes), reforçou as reclamações várias que se fizeram ouvir nas manifestações que ocorreram nas passadas semanas em torno do preço e qualidade dos transportes e levantou novas exigências de que destaco a reforma agrária, 10% do PIB para a educação e a redução do horário de trabalho para as 40 Horas sem perda de salário.

A luta não vai parar e já está convocado novo “Dia Nacional de Paralisações” para 30 de Agosto, caso o governo de Dilma não aceite as reivindicações ou não abra processo negocial.

Este breve apontamento sobre as lutas que ocorrem nos mais diversos países e Continentes nestes tempos duros leva-me a refletir na necessidade de os trabalhadores (a exemplo do que aconteceu no Dia Europeu de Ação e de Solidariedade de 14 de Novembro de 2012 que envolveu 50 organizações sindicais de 28 países, com Greves Gerais em Portugal, Espanha, Grécia e Chipre) manterem e aprofundarem a articulação conseguida neste dia, que foi considerado a primeira greve geral internacional do século XXI.

É imperioso que esta tarefa difícil de conjugar situações tão díspares a diversos níveis e com condições objetivas diferenciadas em cada um dos países, esteja sempre presente no horizonte, arrisco a dizer, imediato de cada uma das Centrais Sindicais Nacionais, da CES (confederação europeia de sindicatos), CSI (Confederação Sindical Internacional) e FSM (federação sindical mundial). A complexidade da situação mundial e a crise económica e social em que vivemos assim o exige, é a democracia que começa a estar em causa.

Passando para a escala nacional, no atual momento político que se vive em Portugal é fundamental manter a pressão popular sobre o Presidente da República e exigir que a democracia não fique refém dos mercados, por isso não temos hesitações, nem entramos em jogos palacianos para negociar um qualquer “compromisso de salvação nacional”.

O Bloco de Esquerda está ao lado dos vivem dos rendimentos do trabalho e por isso a nossa exigência é dissolução da Assembleia da República, Eleições Já!

Sobre o/a autor(a)

Dirigente sindical
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