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Liberdade e democracia, sempre!

Repensemos estratégia, reforcemos formas de intervenção, saibamos criar pontes para que todos e com todo o empenho possamos estancar o divisionismo pelo ódio, a perseguição pela intolerância, o desmantelamento social edificado por Abril.

O resultado de eleições presidenciais, pelo efeito direto do que está em causa, só tem um vencedor e é unipessoal - quem ganha é Presidente da República. Não há vice-presidentes, nem lugares honrosos com influência no mandato. Mas como qualquer outra eleição tem interpretações políticas e sociais que, mais ou menos tendenciosas, cada um/a faz. É exatamente esse exercício que aqui expresso, em jeito de opinião pessoal. Começo por prestar um tributo, em forma de agradecimento, aos milhares de pessoas que num corajoso ato de cidadania, atendendo ao momento, organizaram e compuseram as mesas de voto, garantindo que todos nós pudéssemos votar em segurança.

Cingindo a análise à frieza dos números, Marcelo Rebelo de Sousa, com o apoio declarado do PSD e o apoio oficioso de António Costa que não indo a jogo ganha pela tática da aparente ausência, é um vencedor absoluto em todos os concelhos como que cobrindo o país de um manto hegemónico. Creio ser inédito. A única percentagem que compete com o candidato é a abstenção, que com todas as explicações que possam ser apresentadas, umas mais credíveis do que outras, continua a ser inaceitável que um presidente seja eleito por um universo inferior a metade dos eleitores. Ana Gomes, que não teve o apoio nem mobilizou o eleitorado do PS, pescou eleitores de esquerda e ultrapassou a fasquia do meio milhão de votos o que lhe permite sair enxuta do desafio. André Ventura faz uma espécie de salto à vara eleitoral suportado por uma fanfarronice estéril de género “pimba” da política. Três frases bombásticas em forma de acordes musicais que zoam por um injurioso altifalante, enquanto vocifera a populista tagarelice. Todos os outros candidatos e candidata alcançaram resultados muito reduzidos, com especial enfoque nos apoiados pelos partidos de esquerda, Bloco de Esquerda e PCP, bastante aquém do pretendido e objetivado.

Aqui faço uma referência especial à candidatura que ativamente apoiei - Marisa Matias, em quem me sinto orgulhosamente representado e a quem agradeço a valentia, a firmeza e a justeza dos temas que trouxe para esta atípica campanha. O SNS como conquista de Abril e serviço central para o momento; precariedade laboral como bandeira dos direitos do trabalho e premência de apoios sociais; emergência climática como resposta aos evidentes limites do planeta e enquanto transição para um novo modelo de desenvolvimento. Faltou a empatia do contacto pessoal que tanto a identifica, faltou a arruada festiva, faltou a dinâmica crescente que galvaniza a campanha. É verdade que eleitoralmente perdeu a disputa, mas mantém-se a contenda e hoje, tal como ontem e amanhã, a luta continua. Cá estamos para prosseguir o caminho que traçamos, sem tibiezas nem desvios, abertos ao diálogo e às pontes, prontos a mobilizar para a solidariedade social contra a crise pandémica. Os efeitos são devastadores e não há tempo a perder.

Numa análise de abrangência política dos resultados, sem dramatismos mesmo que com ponderação exaltada, considero que a democracia foi posta à prova e em causa. Um candidato que desrespeita e ameaça os princípios fundamentais da Constituição Portuguesa; que representa posições politicas extremistas com propostas tendentes a subverter a ordem constitucional e democrática; que faz campanha a infringir regras básicas do período de confinamento a que todos estamos sujeitos; que usa uma ignóbil linguagem de arruaceiro e insulto pessoal contra outros/as candidato/as e dirigentes partidários; que defende um programa de derrube a pilares de Abril como o SNS e a Escola Pública e maltrata o estado social insultando os mais desfavorecidos; que estigmatiza etnias, instiga a discriminação pelo ódio e aparta os cidadãos entre os de bem e os maléficos; que despudoradamente adultera afirmações e transmuta opiniões com a desfaçatez de quem diz algo e o seu contrário quase em simultâneo. Ainda agora, depois de ter jurado demitir-se se tivesse menos votos que Ana Gomes, prepara-se para um espetáculo mediático de ilusionismo em formato de programa de entretenimento transmitido em direto. Saio por uns momentos e volto em apoteose ou não chego a sair e sou aclamado em apoteose? A que desventura os “cheganos” o sujeitam!

E é este candidato que cria uma onda de aficionados traduzida num resultado de quase meio milhão de votos. Algo vai mal no reino de Portugal!

Perante esta normalização do extremismo numa clara reconfiguração da direita, o CDS a extinguir-se e o PSD a baralhar-se, o sinal está dado e o alerta tem de soar bem alto

Povo de esquerda deste país, gente de bom senso, os próximos tempos exigem trabalho e reflexão. Quem adormece em democracia, sujeita-se a acordar em ditadura. Repensemos estratégia, reforcemos formas de intervenção, saibamos criar pontes para que todos e com todo o empenho possamos estancar o divisionismo pelo ódio, a perseguição pela intolerância, o desmantelamento social edificado por Abril.

Urge desmascarar o logro populista e desconstruir o enlevo montado por falsas promessas. Por detrás da personagem trauliteira impingida para desbravar trilho, está uma organização fascista com ramificações internacionais cuja pretensão é a de instaurar regimes políticos totalitários.

Por isso é que temos de distinguir os propósitos dos votantes. Sendo verdade que muitos saíram do armário, escondidos que estiveram nos partidos da direita institucional, e outros saudosos do antigo regime agarram a oportunidade. Muitos outros, somente estão desiludidos com a política, com episódios de corrupção e favorecimentos, com as sucessivas crises que castigam sempre mais os mais vulneráveis, com o desencanto da falta de novas perspetivas de vida. Anseiam legitimamente melhores condições e um futuro menos incerto e veem neste discurso fácil de “fuga para a frente” a possível oportunidade.

É a este/as cidadãos/ãs que a Esquerda tem de saber esclarecer quão perigoso é o caminho que escolheram, porque só em democracia e com liberdade se podem fazer as melhores opções.

Artigo publicado no “Jornal de Barcelos”

Sobre o/a autor(a)

Professor. Dirigente e deputado do Bloco de Esquerda
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