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Liberalismo e as lições chilenas

O “plano” aplicado no Chile teve um resultado imediato: assassinadas mais de 3.000 pessoas. A nível económico, os “boys” de Chicago decidiram fazer uma privatização quase completa dos sectores públicos.

A Justiça chilena vai, pela primeira vez, analisar as circunstâncias da morte de Salvador Allende em 1973, quando as tropas de direita lideradas por Pinochet tomaram o poder. Juntando a outros 725 casos de violação dos direitos humanos, o juiz Mario Carozza irá ter uma responsabilidade acrescida em julgar o que foi, para muitos sectores da esquerda, um assassinato.

O golpe de Estado do Chile ocorreu num contexto de largo apoio popular ao primeiro chefe de estado marxista eleito num sistema de democracia parlamentar. Respondendo às reivindicações do movimento popular, Allende nacionalizou grandes empresas produtivas nacionais expropriando a burguesia chilena e internacional, atacando directamente a elite económica que esmagava milhões de chilenos pobres.

A resposta da burguesia chilena, aliada a grandes lóbis internacionais com interesses na manutenção da situação de exploração extrema, foi das mais violentas da História. Depois do golpe apoiado por sectores da inteligência americana, o poder foi tomado pelos militares com a tutela da economia oferecida a uma corrente então minoritária da teoria económica: a Escola de Chicago de Milton Friedman. Descrita por Naomi Klein como uma doutrina de choque, o “plano” aplicado no Chile de repressão a todos os níveis, teve um resultado imediato mais óbvio: assassinadas mais de 3.000 pessoas e o desaparecimento de mais de 30 mil.

Mas a nível económico, os “boys” de Chicago decidiram fazer uma privatização quase completa e violentíssima dos sectores produtivos públicos. Isto transpôs-se não só na privatização de grandes empresas estatais de, por exemplo, exploração mineira, mas também na privatização do sistema de segurança social. Até aos dias de hoje, o Estado chileno tem de compensar a desvalorização tremenda das reformas de milhões de chilenos, perdidas no casino internacional das bolsas de valores. O capitalismo não só não conseguiu transformar a segurança social num sector “lucrativo”, como queriam, como brincaram com a vida dos chilenos, privando-os de uma segurança social de facto segura.

Pouco depois, nas décadas de 70 e 80, esta mesma política de desregulamentação dos serviços públicos ensaiada no Chile foi aplicada nos EUA e em Inglaterra, na era Thatcher e Reagan. Apesar da administração americana nunca ter estado directamente envolvida na escolha da doutrina económica aplicada no Chile, também nunca esteve interessada em democratizar o Chile (ao contrário do Iraque, por exemplo), provando que sempre preferiram um ditador de direita a um democrata de esquerda. Esta onda de expansão do neoliberalismo levou a uma espiral de privatizações e desresponsabilização do Estado nas políticas sociais que eventualmente foram uma das causas da crise financeira desencadeada em 2007.

Mas a lição do fracasso das políticas ultra-liberais da Escola de Chicago não foi aprendida. Apesar do falhanço completo em transformar o Chile num estado-modelo a nível de crescimento económico com um Estado pequeno, hoje em dia as várias correntes liberais expandiram o seu poder e a sua hegemonia política, económica e cultural. Com a submissão completa à especulação criminosa dos sempre nervosos “mercados”, os Governos do PS e do PSD fizeram a vénia à doutrina neoliberal, incrivelmente dizendo que só assim se pode defender o Estado Social. Hoje, está na ordem do dia a venda ao desbarato de sectores do Estado como a ANA, mesmo sendo lucrativos. A gradual privatização do SNS, do Ensino Superior e as propostas mais ou menos mal-encapotadas do PSD de privatização da segurança social são hoje bandeiras da Direita, mas não só.

Esta semana no Parlamento, Teixeira dos Santos disse respondendo a Paulo Portas, "os governos do PSD/CDS-PP é que não fizeram qualquer esforço de privatização", enquanto defendia as privatizações realizadas pelo Governo em 2011. O PS está oficialmente a concorrer com a direita para saber quem destrói mais o Estado, quem está mais à Direita.

Podemos agora pensar se a História é de facto, cíclica. Será que o capitalismo consegue superar as suas contradições e aprender com os seus erros? Será que o futuro que se adivinha cada vez mais próximo nos promete a doutrina de Friedman e a destruição das conquistas sociais e políticas que custaram a vida a milhares de lutadores de esquerda? Parece-me que sim, e a questão agora, é saber se conseguiremos construir uma resistência social que ganhe, ou se seremos esmagados pela hegemonia neoliberal.

Sobre o/a autor(a)

Assessor no gabinete do Bloco de Esquerda na Câmara Municipal de Lisboa.
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