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As lágrimas e o crocodilo

A história que referi, infelizmente, não é nova. Repete-se por todo o país e, na grande maioria das vezes, com desfechos muito negativos. Tem o expoente máximo na taxa de desemprego sem precedentes no nosso país, cujo recorde é batido a cada mês que passa.

É com esta realidade que contrastam as recentes palavras de Belmiro de Azevedo. Do cimo do seu altar, o segundo homem mais rico de Portugal dirigiu-se ao país e disse: olhem para mim e chorem, porque não me merecem. A farta realidade que vive dá-lhe um discurso que se apresenta acima do sistema, mas que tem o poder radicado no próprio sistema. A acumulação trás o poder e o poder permite ainda mais acumulação: é o ciclo vicioso do capitalismo que deixa pelo caminho uma imensa maioria.

É da acumulação à custa do trabalho que Belmiro e outros conseguiram parte substancial das suas fortunas. Mas é com a ajuda dos vários Governos que a vida lhes foi em muito facilitada. Que o digam os trabalhadores das grandes superfícies a quem Belmiro queria exigir que trabalhassem 60 horas por semana, tudo fruto do Código de Trabalho de José Sócrates. A força de uns acontecerá sempre à custa dos outros.

É no enorme exército de desempregados, que cresce todos os dias, que o capital continua a ganhar força para desregular as relações laborais, para impor regras cada vez mais abusivas, para justificar a tal flexibilidade. E é nessa condição de desempregados ou em vias de o sermos que mais expostos ficamos a essa exploração.

É pois, no combate ao desemprego e no auxílio aos desempregados que a Esquerda se define. E é no Orçamento de Estado que essas escolhas deveriam ficar bem vincadas. Mas, como já sabemos, José Sócrates prefere os negócios ao emprego... E os negócios, esses, só os faz à direita.

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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