Está aqui

Jornalismo: A Amarrotada “Folha A4”

Um dos perigos que se colocam ao exercício da profissão tem a ver com a mercantilização das notícias, a fixação no “breaking news” e a produção em série de notícias sem sair da redação.

Os jornalistas renovam no próximo dia 21 os Corpos Sociais do Sindicato para o próximo triénio, Direção, Conselho Deontológico, Conselho Fiscal e Conselho Geral, com duas listas concorrentes, “A”e “B”. A segunda concorre a todos os órgãos e no essencial, apesar de algum refrescamento, recandidata a atual líder, Sofia Branco, da Agência Lusa e São José Almeida, do jornal Público, para o Conselho Deontológico.

Este ato eleitoral ocorre pouco mais de um ano depois do histórico 4ºCongresso que se realizou com quase vinte anos de atraso, num quadro de profundas transformações, sobretudo, com a degradação das condições de trabalho dos seus profissionais, desafios éticos, deontológicos e numa crise que é transversal não só no país, mas à escala global.

Na altura do conclave, a Presidente do Congresso Maria Flor Pedroso dizia que devíamos passar da “folha A4” à ação. A Resolução Final que não chega a preencher essa página, definiu pontos muito concretos como as questões laborais, a precariedade (recibos verdes, falsos recibos verdes, estagiários, etc.) que atinge a classe e foi um grito de alerta.

As redações são cada vez mais pequenas, empurrando para o desemprego profissionais com provas dadas e contratando jornalistas mais novos por condições indignas.

É fácil perceber que o aumento da precariedade” fragiliza os direitos dos trabalhadores e instala o medo e a autocensura, pondo em causa um jornalismo livre e independente”, como alertam os sindicalistas.

O Congresso foi mais longe ao pressionar a Autoridade para as Condições de Trabalho para que leve as empresas a cumprirem a legislação laboral. E isso foi feito: nos últimos meses instou-se à intervenção da Autoridade para as Condições do Trabalho e houve encontros com o ministro do Trabalho e com a Administração da RTP, uma vez que a empresa de serviço público também tem casos de trabalhadores precários.

Mas, convém dizê-lo, este congresso fez também um profundo debate sobre a ética, a deontologia e a regulação dos próprios jornalistas.

Os públicos esperam rigor, isenção, competência, qualidade, porque temos um ofício com responsabilidade social e encaro-o como um serviço público, não como um exclusivo do setor empresarial do Estado, é também dos “media” privados e cooperativos.

Informar sim, mas procurar ter sempre uma função social. O serviço público do jornalismo passa por corresponder aos anseios dos públicos, promover a mobilização social, melhorar o debate público, rever a agenda pública, ajudar os cidadãos a compreenderem o contexto dos acontecimentos.

Uma decana da BBC e docente de jornalismo da Universidade de Londres, Suzanne Franks definiu assim aquilo de que, infelizmente uma boa parte do jornalismo se está a desviar: “o dever do jornalismo é confortar os aflitos e afligir os confortáveis”.

Mas sem sensacionalismo e exploração dos sentimentos, acrescente-se e sublinhe-se.

E é aqui que um ano depois entramos numa sucessão de casos em que os jornalistas, sobretudo nas televisões e na imprensa publicada não cumpriram com aquilo que saiu da Resolução Final do Congresso votada por aclamação. Aquilo que está inscrito no Código Deontológico e na legislação, como o Estatuto do Jornalista.

Nos incêndios de Pedrogão Grande o país assistiu a situações em que houve exposição de dor das vítimas e outros excessos de sensacionalismo; que dizer da exposição de cadáveres e as entrevistas com pessoas em estado de descontrolo emocional?

E ainda sobre os incêndios, aquela capa da revista “Sábado”, dias depois da demissão da ministra Constança Urbano de Sousa, com a foto da mesma, titulada provocatória e desnecessariamente “Boas Férias” e em fundo a lista de nomes dos mortos dos incêndios… numa banalização da própria lista das vítimas?

Estes são alguns casos flagrantes de violação de vários artigos do Código Deontológico, que condena qualquer ato praticado por jornalistas que visem a humilhação de alguém ou a utilização abusiva de imagens.

Existem contudo bons exemplos neste último ano de como o jornalismo pôs a descoberto um país desconhecido ou conhecido pelo “diz-que-disse”: a investigação de Ana Leal da TVI sobre o caso “Raríssimas”, que não levantou quaisquer problemas junto do Conselho Deontológico do Sindicato, apesar da polémica que se gerou. Um caso que fez despoletar outras investigações judiciais e da Segurança Social noutras IPSS (e ainda a “procissão vai no adro’?)… ou as reportagens de verdadeiro jornalismo de investigação de Pedro Coelho na SIC, sobre a banca que abriu várias caixas de Pandora. Os trabalhos do “Sexta às Nove” na RTP sobre incêndios/Proteção Civil.

Um dos perigos que se colocam ao exercício da profissão tem a ver com a mercantilização das notícias, a fixação no “breaking news”, no efémero, o “endeusamento do imediato” e a produção em série de notícias sem sair da redação.

E os direitos de autor são muitas vezes mandados às urtigas.

Desprovida de equilíbrio democrático é a constatação daquilo que os três canais de televisão nos oferecem sobretudo quando tratam de matéria económica. Jornalistas que são comentadores continuam a defender uma linha liberal, não há a defesa de alternativas, mesmo quando falhou a austeridade e a liberalização financeira e isso está mais que provado desde outubro de 2015. Não se lhes pede que assumam qualquer posição em matéria de economia política, mas que quando estão a conduzir um programa como moderadores ou a fazer comentários, expressem como jornalistas os pontos de vista pró e contra determinado assunto. Aliás, existe uma promiscuidade entre “comentário” e “análise”. Os jornalistas especializados podem fazer análise com base nos seus conhecimentos, mas sempre no pressuposto de mostrarem aos públicos as diferentes ideias sobre determinada notícia.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista, Ex-Editor Assuntos Internacionais da RTP Antena 1
(...)