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A inclusão ou exclusão das palavras

Um dos maiores problemas com que a linguagem inclusiva se depara é com o modelo patriarcal e machista da sociedade que modela os idiomas.

Leio com alguma consternação testemunhos, que reproduzem o que se ouvia e ouve pelos corredores das escolas. Os miúdos adoravam apontar aquele que sofria de obesidade, ou aquela que tinha uma doença de pele que lhe manchava a cara. Não se importam nada em chamar nomes ao que tem mobilidade reduzida e ao colega da turma ao lado, que tem Síndrome de Down, e que passa os intervalos sentado dentro da sala para não levar socos dos que se dizem amigos dele. Essas pessoas cresceram, e estão entre nós. Essas pessoas vão crescer e estarão entre outras pessoas.

Da minha juventude, lembro-me de ir ao café da esquina e sentir na pele o olhar curtido daqueles homens de pele rija, que murmuravam entre si palavras penetrantes, que me faziam sentir pequena. Encurralada. De certa forma, quase que violada. Era sempre o mesmo, quando passava pelos andaimes ou pelas portas abertas dos espaços comerciais onde se fumavam cigarros e olhavam as raparigas da minha idade. Menores, de espírito aberto. Prontas para eles as usarem. Essas pessoas continuam entre nós.

Recordo um amigo, que perdeu a sua identidade quando passou a ser um saco de pancada de uma parte da sociedade que não aceitava vê-lo a passear na rua, de mão dada com o seu namorado. E uma amiga que acabou por ser internada, depois de anos a combater problemas com álcool e drogas, porque a mãe expulsou-a de casa quando soube que ela estava apaixonada pela vizinha. Tenho nos meus lábios o nome daquele que suicidou no dia em que veio a público que estava numa relação de longa data, mas tinha também um gosto particular por participar em espetáculos Drag, aos fins de semana. Atirou-se do prédio, sem sequer pensar duas vezes. Antes isso do que sofrer as palavras daqueles que estão entre nós.

As palavras são pesadas. Magoam e danificam como que se de violência física se trate. Deixam cicatrizes, muitas vezes incapazes de serem curadas.

No passado dia 25 de novembro quem ainda não sucumbiu ao caminho do ódio honrou, uma vez mais, o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher. Por todo o país e um pouco por todo o mundo, juntaram-se grémios para discutir o exponencial crescimento dos crimes de género, mas também para falar dos que abrangem outras minorias e outros grupos perseguidos. Falamos das vinte e duas mulheres cujos assassinatos estão registados em Portugal como femicídio, só este ano, e de todas as outras que morreram ou sofrem em silêncio, com medo das palavras das pessoas, que lhes irão acusar de serem elas as culpadas.

As palavras podem matar. Ou deixar morrer.

O problema da violência contra o sexo feminino não é novo, e nunca foi desculpável. Antigamente não deveria ter sido assim. Nos países onde ainda é preciso autorização de um homem para sair à rua, nunca deverá ser assim. E por cá, de cada vez que um homem levanta uma mão contra uma mulher, abre a boca para projetar um conjunto de alarvidades ou simplesmente escreve um chorrilho de mentiras e insultos, deve de ser escrutinado e alvo de julgamento, ao abrigo da lei. Desenganem-se os que pensam que estão inocentes, mas não se esqueceram de ir lá gostar secretamente do que esses homens disseram. Ou aqueles que passam na rua por um casal em discussão explosiva e nem se dignam a prestar atenção, para saber se alguém precisa de ajuda. Sois culpados e coniventes. Aliados nunca serão!

As palavras são armas de destruição maciça. E os únicos escudos que conhecemos para as aguentar são outras palavras.

Um dos maiores problemas com que a linguagem inclusiva se depara é com o modelo patriarcal e machista da sociedade que modela os idiomas. Vejamos o caso de França. As fundações do absolutismo francês passaram pela estruturação e a normalização da língua francesa. Curiosamente, basta ler o que pensava um dos grandes arautos desse processo e perceber as suas intenções. Dominique Bouhours sustentava que, na gramática, “quando os dois géneros se encontram, o mais nobre deve prevalecer”, sendo obviamente da opinião que o género masculino era o mais nobre. Estamos conversados sobre a fraude que é a ideia de um suposto processo histórico neutro. Se tudo é político, por que é que algo tão importante como a linguagem deixaria de o ser? A língua tem história e ideologia.

A história portuguesa não é tão linear nesta matéria, não havendo um momento específico com a escolha deliberada de uma orientação masculina do idioma. Mas, há cinco séculos, já o primeiro gramático português, o aveirense Fernão de Oliveira, ironizava com a dominação do género masculino escrevendo que “marido e mulher ambos são bons homens”. E, até recentemente, Mulher significava a fêmea da espécie humana, enquanto Homem dava significado a cada um dos representantes da espécie humana.

A utilização do senso comum como a capa do politicamente correto, que permite as “piadas fáceis” ou dá cobertura a generalizações opressoras, é apenas mais uma faceta deste conservadorismo. Daí, cataloga a linguagem inclusiva de subversão gramatical e apela ao imobilismo social – regra geral, preferem chamar-lhe “tradição” – contra a evolução da língua.

Não precisamos de ir mais longe, em plena época de mundial de futebol, bastando referir o exemplo da ditadura salazarista que mudou o vermelho para encarnado, porque quem apoiava o Benfica não poderia gostar de comunistas avermelhados, claro está. E se tal requalificação linguística pode hoje até parecer absurda, à época foi uma ferramenta importante de sedimentação ideológica e mudança de mentalidades, que ainda carrega peso em alguns caminhos da nossa sociedade.

Esta é a nossa luta. A mutação. Para a igualdade. Para a inclusão. Para um caminho conjunto.

De todas as mulheres. Da comunidade LGBTI+. Das pessoas com necessidades especiais. Das minorias étnicas.

Não compete a um tipo sentado na sua mesa de esquina no café decidir se esta linguagem é ou não aceitável. Nem aquele que da sua secretária de poder debita palpites do topo da sua pilha de comportamentos tóxicos. Não caberá a uma Academia constituída exclusivamente por homens pronunciar-se sobre a veleidade de mudança de quem sofreu na pele desde sempre a opressão em todas as suas formas. Não é apenas um partido político ou um governo em exercício de funções, mas sim o povo, quem mais ordena.

E juntas e juntos, como deve de ser, chamamos o assunto à mesa de ordem. Para dizer que a violência nas palavras não pode continuar. Não é certa, nem legítima.

Como quem se esconde atrás de palavras e insultos para mascarar a sua incompetência. Como quem nunca soube tratar bem uma mulher, um irmão homossexual, ou um filho com necessidades especiais. Não podem continuar a passar impunes.

Sobre o/a autor(a)

Deputada do Bloco de Esquerda na Assembleia Regional dos Açores. Licenciada em Educação. Ativista pelos Direitos dos Animais. Coordenadora do Bloco da Ilha Terceira
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