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A homenagem de Seguro ao discurso de Cavaco

Quem escutou as indignadas reações dos socialistas ao discurso de Cavaco Silva ou leu a veemente entrevista que Seguro concedeu ao Expresso, esperaria tudo menos o ovo que saiu do congresso do PS.

Afinal, apesar de desejar uma maioria absoluta (que as sondagens teimam em negar), Seguro quer fazer coligações. Ora, se tais acordos implicam o referencial proposto (continuar “os sacrifícios” e o “rigor”), então tais negociatas só poderão ser feitas com o PSD e/ou o CDS. Este último, já se percebeu, na estratégia mediática bipolar que tem protagonizado, anda em namoro descarado com o PS, até porque se há algo que o carateriza é a sua aversão à falta de poder. Por outro lado, uma vez derrotado Passos Coelho nas próximas legislativas (que o PS deseja ardentemente, apesar da retórica, que decorram no tempo previsto), afastada a sua clique da liderança, tudo se tornaria mais fácil para um amplo governo “amigo da Nato” e da “União Europeia” (segundo o cliché tão em voga dentro dos dirigentes socialistas).

Nessas circunstâncias, pensará Seguro, o tal “rigor” e “sacrifícios” que pretende que continuem (mas e então o “basta de austeridade!”?) teriam o respaldo do tal governo social-democrata com “pitada liberal” de que se fala nos jornais como o futuro velho paradigma deste PS de sempre.

Alexis Tsipras tem razão: não devem existir dogmas em relação a políticas de alianças, mas sim alguns princípios, muito pragmáticos, como romper com o programa do memorando da Troika. Seguro, pelo contrário, escutou Cavaco e deixou o coração liberal falar mais alto.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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