Está aqui

Há vida para além do vírus

A perspectiva de uma vida fechada em casa própria não é fascinante para ninguém. Nem para os proprietários. São as escolas, os concertos e as ruas que nos dão vida. É a certeza de que o risco faz parte até à próxima vacina.

Começa a chegar o momento em que a possibilidade se cruza com a probabilidade. Quando apareceram os primeiros casos, a reacção ocidental, à distância do coronavírus, foi tomada de assalto por um misto de incredulidade perante o exotismo asiático, alimentando as mais mirabolantes teorias da conspiração sobre a evolução demográfica na Ásia, o lucro das farmacêuticas ou sobre a higiene (ou falta dela), soma de caldeirada com crítica aos hábitos alimentares de outros povos distantes, aqueles que se infectam lá longe. Um caldo irrepreensível de ignorância, xenofobia e desinformação.

Depois, foi o tempo do espanto. O vírus era mesmo alimentado a "speeds" e tinha a particularidade de resistir, insistir, persistir. O tempo de reacção humana assumiu, então, contornos de uma fábula com personificação: a construção em tempo recorde do hospital em Wuhan por obra e graça das formigas mestres de obras, encantou o Ocidente que pugna por menos trabalho em nome do lazer e da eficácia. É que estão mesmo em causa os nossos tempos livres quando percebemos que só ao florescer em Itália se tornou numa verdadeira ameaça. A possibilidade é, assim sendo, provável. O Covid-19 mudou de nacionalidade ao falar italiano e passou a arranhar português. Se agora ficássemos imunes, seríamos um caso de estudo.

Há um momento em que vemos a autofagia como solução e essa circunstância no tempo chama-se verão. Garantem-nos que as altas temperaturas não se limitarão a afastar o excesso de roupa dos corpos mas também o novo corona dos organismos. Manual do gelo. Não deixa de ser curioso que a presença do vírus em mais de 40 países, tendo agora chegado ao Brasil, faça da Antártida o único continente sem casos assinalados. Com cerca de 2800 mortos a reforçar as estatísticas, questiona-se se a tão propalada força da epidemia não estará já a perder força, tendo atingido o pico sem beliscar território português. Mas sobra pouco de incerteza quanto à inevitabilidade. As grandes dúvidas prendem-se mesmo com a nossa capacidade de resposta. E é aqui que entramos pelas palavras de Jobim, as "águas de março, fechando o verão", como nos incêndios de verão que, sem resposta, nunca acabam ou acalmam.

Prudência. Se é indiscutível que os grandes aglomerados humanos são portas abertas à propagação do vírus, a nossa reacção antecipatória dá bem a nota de como somos felizes como seres gregários. Sabemos que o individualismo não é vencedor quando a dimensão colectiva triunfa no momento em que sofre os mais cerrados ataques. A perspectiva de uma vida fechada em casa própria não é fascinante para ninguém. Nem para os proprietários. São as escolas, os concertos e as ruas que nos dão vida. É a certeza de que o risco faz parte até à próxima vacina. Estejamos atentos. Mas a vida para além do vírus não se serve em bunkers.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 28 de fevereiro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
(...)