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Há pontos cardeais que só alumiam no passado

O bolor das declarações de um certo Cardeal não chega para inverter a linha do tempo. O presente reclama direitos para além dos que a crise nos tira, como o direito à adoção por casais do mesmo sexo, que em forma de lei será discutido esta semana, no parlamento.

Não posso deixar de comentar aqui as recentes declarações de um clérigo português reconhecido pelo Vaticano que, julgo, farão corar muitos conservadores que sabem que há coisas que mesmo que se pensem não se dizem em público. Mas o Cardeal Manuel Monteiro de Castro, e também chefe do gabinete do Vaticano para os assuntos do sacramento e penitência, não se coibiu de dizer o que pensa e da sua honestidade brotaram considerações sobre o papel das mulheres na sociedade. Na sociedade… do século XIX.

Vale a pena citar Manuel Monteiro de Castro porque a clareza das suas palavras é a medida da sua ofensa a todas as mulheres. Numa entrevista, o Cardeal, nomeado pelo Papa, afirma que “o maior problema de Portugal” é o “pouco apoio que o Estado dá à família”. Qual crise! “A mulher deve poder ficar em casa, ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos”, sustenta.

Contudo, o bolor das declarações de um certo Cardeal não chega para inverter a linha do tempo. A democracia não pode suportar hoje a possibilidade de o Estado ou a sociedade definirem cidadãs de segunda, cujas histórias se poderão contar nomeando-as como protagonistas mas nunca como autoras. Esta é a exigência de anos de luta feminista e de construção de uma sociedade mais igualitária e emancipada do cardápio de opressões que, ainda assim, permanecem diluídas nas relações sociais, nas instituições, no próprio Estado.

De um outro ponto de vista, é também por esta razão que a crise e a dívida pública não poderão sobrepor-se a um referendo que determinou o fim da perseguição às mulheres em Portugal, legalizando a Interrupção Voluntária da Gravidez e instituindo-a como um direito que tem de ser assegurado no serviço público de saúde. Substituir a ameaça de prisão por uma taxa moderadora altíssima, mascarando isso com a desculpa da viabilidade do Sistema Nacional de Saúde, é o reflexo do mesmo gesto persecutório. É preciso dizer bem alto que estamos atentas e não queremos voltar atrás e que estamos também solidárias com as mulheres do Estado espanhol, que vêem agora o direito a decidir sobre o seu corpo ser determinado pelos desaires conservadores do governo de direita que chegou ao poder.

A linha do tempo, encaramo-la no presente, olhos nos olhos com o futuro. A crise e a austeridade tornaram-se no motor do retrocesso, bem o sabemos, porque o sentimos na pele, na vida, nos sonhos adiados. Mas há direitos que não nos podem tirar porque ainda estão por garantir. Exemplo disso, é a discriminação que ficou na lei após a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo – o direito a adotar.

Esta semana, no parlamento, o Bloco de Esquerda rema contra a maré do cinzentismo da crise, e lembra que a vida das pessoas é determinada também pelas vontades e os projetos que se querem cumprir, pelas famílias que se querem construir alicerçadas nos valores da igualdade, da liberdade, do respeito pelas escolhas que são de cada um e cada uma. Famílias cujo parentesco é definido pelo afeto e nada mais. Assim, uma lei que permite a adoção por casais do mesmo sexo será discutida e votada por imposição de quem não espera pela bonança e na tempestade tenta criar portos de abrigo contra o preconceito. Valerá sempre a pena tentar. As histórias que contarão das nossas vidas valem sempre.

E já agora, porque há outros pontos cardeais, esses que indicam o caminho da liberdade, deixo aqui uma sugestão para o mês de março, a sugestão da luta feminista em versão de festa e luta conjunta – Festa Feminista – O Lado F da Crise.
 

Sobre o/a autor(a)

Investigadora e doutoranda em Filosofia Política (CFUL), ativista, feminista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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