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A greve vestiu de roxo

Na Suíça, um país com um índice de qualidade de vida semelhante ao dos países nórdicos e sobre o qual assumimos com demasiada facilidade que também as questões de género estão num patamar mais avançado, o que parece nem sempre é.

Basta uma pequena resenha histórica para perceber o nível de atraso em matérias de igualdade de género neste país. Até 1985, as mulheres precisavam de autorização dos maridos para trabalhar ou abrir uma conta bancária. Apenas em 1971 foi dado o direito ao voto às mulheres (nas eleições federais). Apenas em 2005 foi regulada e estatuída a licença de maternidade no trabalho (proposta chumbada 4 vezes em referendo), mas os homens continuam a não ter licença de paternidade. Em 1991, há quase 30 anos, houve uma greve que juntou meio milhão de trabalhadoras pedindo igualdade salarial e condições dignas de trabalho.

No dia 14 de junho, data que assinala a entrada, na Constituição Suíça, do princípio da igualdade entre mulheres e homens, as mulheres suíças encheram de novo as ruas pintando-as de roxo com faixas e bandeiras feministas. Reivindicaram igualdade salarial, o fim da precariedade e da violência contra as mulheres, num caminho que tem sido longo e trilhado com dificuldade.

As reivindicações que nos chegam da Suíça e que conduziram a uma greve com uma forte adesão são aquelas que se encontram em todos os outros países. As mulheres ganham, em média, menos 12% do que os homens. A dupla jornada de trabalho continua a ter uma carga horária brutal sobre as mulheres. As profissões mais feminizadas continuam a ter salários substancialmente mais baixos. Segundo um estudo recente da Amnistia Internacional, 59% das mulheres suíças dizem ter experienciado assédio sexual (em vários momentos da sua vida).

Não obstante as diferenças do nível de vida e de salários entre a Suíça e o nosso país, facilmente se identificam, também aqui, estes problemas como aqueles que efetivamente dificultam o quotidiano das mulheres e comprometem as aspirações de igualdade na sociedade - salário, precariedade e violência.

Por isso, as greves feministas têm, nos últimos anos, ganho força e levam cada vez mais mulheres a várias formas de manifestação, em cada vez mais países. Este é mais um exemplo de como também estruturas sindicais, como a CGTP, podem e devem fazer uma reflexão aberta sobre o significado da greve feminista e da sua importância, também, para a luta pela igualdade.

O lema desta greve era simples: tempo, salário e respeito. Como se percebe, estas reivindicações são laborais, mas também um forte apelo contra a violência que oprime as mulheres.

Greve apoiada por organizações de defesa dos Direitos Humanos mas também por sindicatos e por partidos como o Partido do Trabalho e os Verdes, concorreram para que milhares de mulheres tenham agarrado na cólera que as injustiças alimentam, roubado algumas horas ao pouco tempo de que dispõem, munindo-se das suas vozes para gritar por respeito, por igualdade, por dignidade, por justiça e liberdade. Porque estas são as reivindicações que têm a capacidade de tocar a vida de tantas mulheres, em tantos sectores, classes ou grupos da sociedade - as feministas, as ativistas, as apartidárias, até as que recusam a etiqueta feminista, mas sentem, na dureza do dia a dia, a violência de género, os salários que não chegam ao fim do mês ou a incerteza de um futuro precário.

Da diretora executiva à mulher da linha de produção da fábrica, da médica à vendedora de peixe no mercado, da investigadora à empregada de limpeza, da estudante à reformada. Todas sentem na pele a violência opressora de um sistema capitalista e patriarcal.

Ou quase todas. Veja-se que até Christine Lagarde se juntou à manifestação. Até os representantes máximos do capitalismo, como a diretora do FMI, percebem quão impopular é contrariar a luta pela igualdade de género.

O sistema capitalista das sociedades modernas, mantém o satus quo e as desigualdades entre homens e mulheres. Essas desigualdades devem ser encaradas numa perspetiva interseccional, e no que toca às lutas feministas elas são por demais evidentes, injetam uma força redobrada às lutas sociais, articulam.se com a contestação ao capitalismo e trazem o roxo ao arco-íris das libertações.

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais e mestranda em Ciências Políticas
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