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A Greve dos médicos em 2 gráficos

Lentamente estamos a transformar o nosso serviço público de saúde num sistema misto em que o público, destinado aos mais pobres, será fraco e insuficiente e o privado, muito bem equipado, estará só acessível a quem o puder pagar.

Listas de espera incomportáveis para cirurgia. Meses e anos de espera para consultas de especialidade. Excesso de utentes por médico de família. Meio milhão de pessoas sem médico de família. Urgências hospitalares caóticas. Contratos para médicos bloqueados. 120 milhões de euros gastos em prestação de serviços. Médicos indiferenciados impedidos de acederem a formação especializada. Falta de especialistas por todo o país. Falta de enfermeiros nos serviços de internamento. Médicos exaustos com centenas de horas trabalhadas em excesso. Enfermeiros exaustos. Profissionais de saúde exaustos. Enfermarias a abarrotar. Doentes internados em macas nos corredores. Consultas limitadas a um máximo de 15 minutos. Ausência de camas de cuidados continuados.

Tudo marcas de uma governação na saúde falhada. Adalberto Campos Fernandes está proscrito e tem de sair. Mas a sua demissão não resolverá os problemas fundamentais de sustentabilidade que enfrenta o SNS. Mudar o Ministro das Finanças também não. Mudar todo o governo também. Trazer de novo a direita também não.

A degradação do SNS tem atravessado diferentes governos, direita e esquerda, momentos de maior investimento público e crises financeiras, juros da dívida negativos e resgates financeiros. Mas perante todas estas oscilações algo se tem mantido estável: a medicina privada. É isso que vos convido a observar – 2 gráficos que ilustram o volume da atividade nos hospitais privados comparado com o dos hospitais do SNS e as respectivas camas de internamento:

Evolução da atividade: hospitais públicos e hospitais privados

Camas de internamento: hospitais públicos e PPP-hospitais privados

Ao longo deste mesmo período o SNS perdeu. Perdeu profissionais, perdeu capacidade de resposta em várias frentes, perdeu capacidade de investimento. E estas não são realidades alheias. Pelo contrário, estão intimamente ligadas e são inversamente proporcionais. Lentamente estamos a transformar o nosso serviço público de saúde num sistema misto em que o público, destinado aos mais pobres, será fraco e insuficiente e o privado, muito bem equipado, estará só acessível a quem o puder pagar.

E nada nestes últimos anos tem sido feito para inverter esta transformação. É por isso que fazem greve os médicos e todos os restantes profissionais de saúde.

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