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Grécia: O radicalismo mudou de lado

Se mais não tivesse feito, nos primeiros 100 dias, o governo grego devolveu à UE o debate político.

As opções do governo de Tsipras, arrastam apoiantes e opositores num debate que contrasta com o tradicional e dominante silêncio de Bruxelas.

Mas fez mais. Aprovoulegislaçãode respostaà crise humanitária que atinge o país, criou um sistema de cobrança faseada das dívidas fiscais, reformou o sistema penitenciário para incluir os direitos humanos.Propôs uma reforma de fundo da administração pública, (menos corrupção, mais eficácia e maior controle) ao mesmo tempo que se melhoraram os serviços públicos.

Contudo, a face mais visível destes 100 dias, é o braço de ferro com as instituições europeias. Os 'radicais' gregos negociaram desde o primeiro dia e obtiveramo acordo das instituições, mas estas fingiram estar de acordo e mantiveram a chantagem. Atenas apresentou uma lista alternativa, verdadeiramente estrutural, de combate à corrupção e reforma do sistema fiscal. Bruxelas não gostou. Para Bruxelas 'reformas estruturais' são cortes em salários e pensões e destruição do Estado social. Por isso não há transferências para os cofres gregos desde Agosto de 2014, apesar de Atenas não ter falhado um pagamento aos credores. Não podia ser mais clara a linha de divisão: a austeridade.

Atenas cedeu e muito e não quer ceder, e bem, no essencial.

Passaram apenas 100 dias, o confronto mantém-se, mas uma coisa é evidente: o radicalismo mudou de lado, está agora cada vez mais nas instituições europeias.

Artigo publicado no jornal "Diário Económico" de 4 de maio de 2015

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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