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A gente põe-se a pensar e pergunta

O abandono interno e o sucesso europeu são o mesmo país. Por isso, o abandono não será erradicado se não combatermos as regras do sucesso que o geram.

A tese dos dois países afirmou-se. O ano saboroso proclamado por António Costa e o ano da desgraça lembrado por Marcelo Rebelo de Sousa são tidos como rostos de dois países que convivem em Portugal. Velha tese, esta, do país da elite dos negócios que convive com o país da gente abandonada. Mas não, o país abandonado não é autónomo do país de sucesso, é sim provocado por ele. Não há convívio entre realidades – o abandono e o sucesso – autónomas: o abandono é o resultado das regras deste sucesso.

O sucesso, dizem-nos, são os números do défice. É termos conseguido um peso da despesa no produto abaixo do que nos exigia Schäuble. Ora, a gente põe-se a pensar e pergunta: como é que se conseguiu isto? E vem-nos à lembrança o encerramento da escola na terra dos nossos pais (quanto se poupou!), vêm-nos à lembrança os quilómetros que os poucos que lá ficaram têm que fazer de táxi para uma urgência ou para uma consulta no hospital porque manter aberta a urgência na vila lá ao lado ficava “caro demais”) (quanto se poupou!), vem-nos à lembrança o desaparecimento dos guardas florestais, o não recrutamento de sapadores florestais ou a não profissionalização dos voluntários lá da terra (quanto se poupou!).

O sucesso, dizem-nos, é a libertação do Estado de encargos com atividades empresariais condenadas a dar prejuízo, é um estado mais magro, mas mais concentrado no essencial. Ora, a gente põe-se a pensar e pergunta: quando o Estado se libertou dos encargos dos correios, não deu a ganhar a uns senhores empresários os 577 milhões que os CTT geraram de lucro entre 2005 e 2014? E a gente pergunta mais: que sucesso é este que dá, este ano, mais 10 milhões de dividendos aos tais senhores empresários do que a riqueza que a empresa gerou, ao mesmo tempo que priva os nossos avós que vivem lá na terra de terem as suas pensões miseráveis no dia certo?

O sucesso, dizem-nos, é o reconhecimento do “milagre português” pelo Eurogrupo. Ora, a gente põe-se a pensar e pergunta: uma centésima dos juros da dívida cujo pagamento não questionamos para não aborrecer o Eurogrupo não teria evitado que a linha da CP que transportava os nossos familiares lá para a terra tivesse sido desmantelada?

Não, não há dois países. O abandono interno e o sucesso europeu são o mesmo país. Por isso, o abandono não será erradicado se não combatermos as regras do sucesso que o geram. Na verdade, que sucesso é este que te põe de bem com outros e de mal contigo?

Artigo publicado no diário “As Beiras” a 23 de dezembro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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