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Ganhar a cidade é ganhar poder

A cidade é onde há maior concentração de manifestações culturais, de riqueza, onde há maior potencial de desenvolvimento das relações sociais, maior possibilidade de expressão e discussão política, mais inovação. É também onde há maior concentração de poder, formal e potencial pelos recursos e relações existentes.

O desenvolvimento das cidades sempre esteve na mão da classe que pode investir nestas. Como diz Harvey é um fenómeno de classe. As cidades são local de aplicação e multiplicação de produto excedente. Por isso o seu desenvolvimento não é inócuo e a sua construção está sujeita também à luta de classes inerente ao sistema capitalista.

Atualmente mais de metade da população mundial vive nas cidades. Ou será mais correto dizer espaço urbano?

O que significa viver na cidade? A cidade pressupõe uma concentração social e geográfica de pessoas e atividades mas também serviços, acesso a recursos. É onde há maior concentração de manifestações culturais, de riqueza, onde há maior potencial de desenvolvimento das relações sociais, maior possibilidade de expressão e discussão política, mais inovação. É também onde há maior concentração de poder, formal e potencial pelos recursos e relações existentes.

Mas tudo isso depende da forma como a cidade se constrói, das possibilidades que cria. A construção da cidade conforma e condiciona quem a habita. As possibilidades e o poder de quem vive num subúrbio a duas horas de transporte do trabalho, tem dificuldades em pagar uma habitação, não tem tempo para estabelecer relações sociais, não tem possibilidades de acesso à cultura, tem dificuldades de acesso a recursos e serviços, são diferentes de quem tem as condições opostas.

O desenvolvimento neoliberal da cidade que se intensificou a partir do fim dos anos 70 tem vindo a promover a expansão capitalista da cidade, desenvolvimento dos subúrbios, de forma formal e informal, onde tendencialmente vivem, porque empurradas ou mesmo expulsas, as classes populares e trabalhadoras. Os centros são do capital, em alta competição, com o desenvolvimento de atividades turísticas, escritórios, condomínios e habitação de luxo e atividades comerciais.

Essa tendência ajuda a suburbanização da cidade, à sua expansão territorial. Também promove um processo de segregação, separação de classe e também de atomização. As possibilidades de mobilidade, de acesso a serviços e recursos, de capacidade de comunicação e de expressão são, como vimos, diferentes.

Lisboa não foge à regra: um novo plano diretor combinado com a nova lei das rendas veio facilitar muito a expulsão dos inquilinos, do pequeno comércio e vem permitir também de forma inédita a toma da cidade pelo capital com um numero exagerado de hotéis, habitação de luxo, lojas de cadeias internacionais. Simultaneamente, os transportes estão mais caros e a vinda ao centro para quem vive na área metropolitana é cada vez mais difícil. Lisboa é uma cidade pequena mas tem uma área metropolitana considerável, que se estende no território. A capacidade que as pessoas têm para se encontrarem e se mobilizarem são, no entanto, cada vez mais difíceis. Lisboa está num processo fortíssimo de afastamento das suas classes populares do centro, para dar lugar ao turismo, as multinacionais, aos grandes eventos, à habitação cara.

Este processo de afastamento da cidade enfraquece na nossa capacidade de lutar, assim como a capacidade de nos desenvolvermos e de sermos. Por isso a pertinência de lutarmos pelo direito à cidade, pelo direito a participarmos plenamente na sua construção que é a construção das nossas próprias capacidades e possibilidades. Se perdemos a cidade perdemos poder; lutar pela cidade é ganhar poder.

Sobre o/a autor(a)

Investigadora e ativista na Associação Habita
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