Está aqui

Galiza ceive! Galiza livre!

Na Galiza, como em Portugal, a crise manifesta-se em máximos históricos de desemprego. O rumo da Europa do diretório e da banca tornou mais dolorosos os caminhos de Santiago.

Na Galiza, como em Portugal, a crise manifesta-se em máximos históricos de desemprego, atingindo já os 22%. Esse número porém não diz toda a verdade pois há que ter em conta que, desde o início da crise, mais de 15% da população entre os 16 e os 30 anos emigrou. Mesmo entre os que ficam, o desemprego juvenil (menores de 25) é de 50% e há 92 mil famílias com todos os membros no desemprego.

Aqueles números da ruína contrastam com a bela paisagem de Vigo, entre a riqueza natural e das suas indústrias, e contrastam também com a imponência monumental de Santiago de Compostela, povoada por quase 30 mil estudantes. Foi esta a cidade que acolheu a XIV Assembleia Nacional do Bloco Nacionalista Galego, no dia 17 de março.

Na véspera da sessão final de um longo processo de debate de base ao nível das comarcas, o BNG reuniu os convidados internacionais junto com as delegações sindicais, juvenis, ecologistas, culturais e outras para debater o tema “Soberania: Saídas para crise económica”. Nesse debate, tornou-se claro algo que não é estranho para nós: o rumo da Europa do diretório e da banca tornou mais dolorosos os caminhos de Santiago. A destruição da produção galega e o espartilho do monetarismo sentiram-se duramente por aquelas paragens.

Nessa jornada de trabalho todos os convidados tiveram a oportunidade de trocar experiências de luta e ideias sobre um futuro que clama o fim da austeridade para chegar a existir. A soberania popular, entendida enquanto expressão democrática da vontade coletiva dos povos, deu o mote para conversas sobre a solidariedade internacionalista tão necessária à construção de uma alternativa à escala europeia.

À hora do início da Assembleia, eram mais de 1500 militantes que se reuniam para debater o futuro desta força política, e ao longo do dia, segundo a organização, chegou a ultrapassar-se os 2000. O que move tanta gente marca o slogan desta Assembleia: “Galiza pelo direito a decidir. Trabalho, Soberania, Igualdade”.

O BNG é uma frente política nacionalista de esquerda que reúne organizações e militantes individuais, que são a sua larga maioria. Marcando a sua identidade política desde a fundação em 1982, a proposta da soberania popular galega como saída para a crise foi afirmada por esmagadora maioria.

Guillerme Vázquez, porta-voz cessante, fez a crítica de um ano do resgate financeiro ao Estado espanhol que trouxe "duras consequências sociais e desvalorização da democracia". Fazendo a análise dos tempos difíceis por que passou a Galiza e o BNG, declarou apoio incondicional ao candidato a porta-voz nacional.

Durante a assembleia, dezenas de militantes chamaram a debate o balanço da participação do BNG no Governo da Xunta da Galiza com o Partido Socialista e as lições de uma experiência que marcou a maturidade da formação nacionalista; foram debatidas as novas saídas para os movimentos sociais e para a participação democrática cidadã; e a necessidade de atualizar e reforçar na Galiza um amplo movimento de base em torno da luta pelo controlo democrático dos recursos por parte dos povos.

E porque o que a luta juntou as margens do Minho continuam a não separar, a Grândola cantada em Santiago a um milhar de vozes reafirmou a amizade e prestou homenagem a quem, do lado de cá do rio, não desiste de lutar pela liberdade.

Na sessão final, Xavier Vence, catedrático de economia, foi eleito porta-voz nacional do BNG com 96% dos votos (1.215 votos a favor, 9 contra e 44 abstenções). Xavier Vence declarou que a direção “renovada e rejuvenescida” do BNG está pronta a encarar uma nova etapa.

Xavier Vence realçou a importância de estar na luta social em todos os campos. É preciso juntar forças contra o PP que impõe a austeridade no Estado Espanhol e na Galiza. E lançou o desafio de criar "unidade de ação com todos os movimentos sociais e forças de esquerda" e "explorar as fórmulas de cooperação estratégica com toda as forças nacionalistas" . Um repto para o trabalho conjunto por uma maioria social a ser desenvolvido em conjunto com as forças políticas, sindicais, movimentos feministas, ecologistas, juvenis, estudantis, culturais e linguísticos, agrícolas e outros movimentos. O objetivo é criar um "pólo nacionalista maioritário na sociedade e nas instituições", mobilizar para a luta "pelo direito a decidir” e pelo desenvolvimento da Galiza.

Por muito que entre as vozes deste povo nos estranhe a palavra celta do mote “Galiza ceive”, não nos estranha nunca a defesa intransigente da liberdade.

Sobre o/a autor(a)

(...)