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A Europa, do medo à esperança

Há um espectro que paira sobre a Europa. É o espectro da política do medo.

O medo é hoje a mais instalada arma política usada na Europa para fazer vencer a estratégia de diminuição da intensidade da democracia. A União Europeia é hoje um espaço disciplinar e punitivo de dominação do centro sobre as periferias. E o instrumento dessa dominação é o medo.

Não há no nosso tempo outro projeto das cúpulas europeias senão o da afirmação desse espaço punitivo, traduzido seja em sanções contra os Estados periféricos seja contra as vidas da grande maioria dos cidadãos da Europa.

Os artífices da política do medo querem-nos amarrados a uma miragem de Europa em nome da qual aplicam uma política concreta que é o avesso dessa miragem. Dizem-nos que estamos condenados a escolher entre integração europeia e egoísmos nacionais, como se a integração europeia de que falam fosse benigna e como se a defesa das democracias nacionais fosse um mal. Dizem-nos que a moderação deve sempre prevalecer sobre os extremismos, como se a moderação europeísta não fosse o discurso que mais tem legitimado os extremismos de punição social.

Como se, em Inglaterra, a moderação de permanecer na União a troco de discriminação social de imigrantes e de blindagem das patifarias financeiras da City tivesse sido realmente alternativa do insuportável “Britain first”. Fosse realmente alternativa e o repúdio de um brexit xenófobo transformar-se-ia numa exigência imparável de acolhimento dos refugiados e dos imigrantes. O processo do brexit foi uma síntese daquilo em que se transformou a União Europeia: à xenofobia da extrema direita, a moderação europeísta responde aceitando jogar o jogo no terreno das discriminações e do nivelamento por baixo. De maneira diferente, uns e outros não fazem senão desconstruir a Europa.

Disse há dias António Costa que é cada vez mais difícil ser socialista sem ser crítico da União Europeia. Tem plena razão. Mas acrescentou que só se pode ser socialista na União Europeia. E assim incorreu no erro confundir o desejo com a realidade. Só se pode ser socialista contra a City e contra Frankfurt, contra Cameron e contra Hollande, contra Merkel e contra Dijsselbloem. Em nome da melhor Europa do espírito crítico, das lutas todas pela dignidade, da permanente incompletude, não se pode ser socialista senão recusando aquilo em que a União Europeia se tornou.

À aliança entre o ódio e o medo que domina hoje a política da Europa, urge contrapor a aliança entre a democracia e a esperança. É por aí que passa a única alternativa digna desse nome.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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