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Estas mulheres que incomodam tanto

Era difícil de imaginar que a voz das mulheres fosse escolhida como o bode expiatório dos fracassos da esquerda, da capitulação do centro e, sobretudo, do alinhamento da direita com um fascista no Brasil.

Não deixa de ser uma homenagem do vício à virtude que, no país em que alguns juízes evocam o “privilégio do macho ibérico” para desculpabilizar uma violação ou entendem que a violação de uma mulher inconsciente é a sequência de média gravidade de uma “sedução mútua”, agora se aponte o dedo ao feminismo como culpado por Bolsonaro. A versão mais catacúmbica desta acusação afirma que as grandes manifestações de mulheres, #EleNão, foram “um golpe de mestre da campanha de Bolsonaro”. A versão envergonhada diz só que as manifestações “foram contraproducentes”. Há nisto um eloquente não-dito: se as mulheres não protestassem contra Bolsonaro, que quer que recebam menos salário e que sugere a violação de adversárias, se se calassem, então ele não estaria tão forte.

Era difícil de imaginar que a voz das mulheres fosse escolhida como o bode expiatório dos fracassos da esquerda, da capitulação do centro e, sobretudo, do alinhamento da direita com um fascista no Brasil e com outra gente infrequentável no coração da Europa ou nos Estados Unidos. Mas é isso mesmo que se está a passar e nem a emoção solta pela acusação a Ronaldo, que precipitou juízos apaixonados sobre o caso, explica este ajuste de contas. As mulheres são culpadas, ponto. Num arroubo de indulgência, duas académicas vieram mesmo comparar o feminismo à Inquisição que entregava judeus à fogueira, garantindo que esse “feminismo desenfreado”, uma “náusea”, quer “diminuir a liberdade, ou mesmo suprimi-la em parte”, uma ditadura, portanto. Estamos bem servidos de apocalipse avulso.

Confesso a quem me lê que a minha experiência nas redes sociais é que basta citar a ideia tão evidente de igualdade entre homens e mulheres para desencadear uma vaga de ódio e que, por isso, bem percebo estas académicas e outros teóricos da conspiração. Ora, há razões bastantes para fazer alguma coisa para contrariar esse ódio e talvez alguns factos ajudem. No Brasil, onde a mulher pode ser presa por aborto, o feminicídio é a banalidade social, 12 mulheres mortas e dez violações coletivas por dia, 500 agredidas em cada hora. Na representação, uma farsa: a prometida quota de 30% deu em 11% de mulheres no Parlamento. Mas, mais até do que a representação política, a linguagem é o padrão universal desta guerra de sinais.

Um caso curioso é o das autoridades na língua alemã, como o Conselho da Ortografia Alemã, que estudam um tema surpreendente: como dizer o plural de professor e professora? “Professor”, masculino? “Professorin”, sugerem? “Professor*in”, mais rocambolesco? A ministra da Justiça pediu uma decisão rápida e logo um jornal, o “Frankfurter Allgemeine Zeitung”, protestou contra a “manipulação das normas linguísticas e ridicularização da gramática”, tudo um “ataque à família”, como não podia deixar de ser. O plural de homens e mulheres só pode ser masculino, é uma condenação celestial. Eu devo dizer numa aula com 29 alunas e um aluno “bom dia a todos”, mas se disser “bom dia a todas” serei ofensivo.

Pois os nossos antifeministas, como outras vozes reacionárias, usam descaradamente este culto da submissão, que coloniza a linguagem e os costumes, para se indignarem quando mulheres se atrevem a falar. As mulheres são assim cercadas pelo poder e pelo preconceito. E, se falam, ajudaram Bolsonaro, era melhor terem ficado em casa, caladinhas. Querem lá ver as atrevidas.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 13 de outubro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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