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Era escusado cair na armadilha

Ignorem o Machado na sua cela, há por aí gente mais perigosa e que parece mansa, mas que, como diria o Aleixo, não sendo o que parece, parece o que não é.

O convite de Manuel Luís Goucha a Mário Machado tem três razões, que são, pela ordem de importância: a guerra das audiências, a guerra das audiências e a guerra das audiências. Reconhecer estas três razões capitais não desvaloriza a presença de um delinquente condenado a uma soma de 19 anos de prisão por crimes violentos, e também nazi declarado, num dia especial da TVI, antes trata o assunto como ele é, grave, sobretudo por demonstrar até onde esta guerra nos pode levar. Não foi um incidente político, foi uma escolha comercial. A televisão não quis mostrar neste caso uma preferência escandalosa, antes quis conquistar audiências à custa do choque. Foi assim nas vésperas da estreia de um programa na SIC conduzido por uma anterior parceira de Goucha e para provocar celeuma, mas pode ser assim e vai ser assim sempre que os auditómetros oscilarem. É certo que o “repórter” que organiza a rubrica tentou mascarar isto de uma conversa sobre “ideias”, apimentada com a sua própria opinião, depois reiterada, de que para haver ordem nas ruas seria preciso um Salazar (deve supor ingenuamente que essa ordem é só uma questão de como os polícias marcham garbosamente, pois prisões políticas, censura, restrição ao direito de reunião, guerra colonial, isso devia ser tudo de outro Salazar).

Se é uma guerra de audiências, então tratar isto como uma transcendente questão política ou até como uma questão de eventuais limites ao direito de opinião é uma armadilha, em que muito boa gente se lançou de cabeça. Aliás, quem assim fez mergulhou em contradições evidentes. Veja-se o caso de Goucha, que foi ao telejornal do seu canal explicar que o convite era uma forma de assegurar o pluralismo, pilar da democracia. Quer ele dizer que se Machado não for convidado para a SIC e RTP estas televisões estão a recusar o pluralismo e a conspurcar a democracia? Tudo disparate. Tanto é assim que, poucas horas depois desta justificação no telejornal, o canal suspendia a rubrica. Terá posto em causa de manhã a liberdade de opinião que era tão importante na noite anterior? O mesmo se dirá da forma como respondeu ao ministro da Defesa: que o Governo não disse nada sobre a eventual vinda de Le Pen a Lisboa, portanto aceitava. Também é um argumento trapalhão: para isto ter significado, será que Goucha queria que o Governo recusasse a vinda da Le Pen (mas ele próprio convida o Machado), ou que não tomasse posição (e então Goucha critica o ponto em que estaria de acordo com o Governo)? Ou o que dizer sobre o argumento extravagante da necessidade de convidar nazis para imunizar a população contra as suas ideias? Então a estação podia ter uma secção no telejornal para convidar os simpáticos milicianos que depois da emissão tiram a maquilhagem, dizem boa noite e vão organizar a caça aos negros ou aos homossexuais, ou espancar mulheres pelas ruas fora. Ou podia inaugurar uma rubrica para a reeducação de criminosos com longas penas de prisão por espancamento, crimes raciais ou participação em expedições que terminam num assassínio, em que expliquem os seus crimes e apresentem indicações técnicas sobre como proceder.

A guerra de audiências é uma guerra de audiências. Assim, o crime maior de Goucha foi ter feito uma escolha patética, tendo evidenciado que, nesta guerra, não há limites. Banalizar um criminoso em nome de uma estratégia publicitária é vergonhoso. Banalizar os seus ataques violentos é uma ofensa às vítimas. Mas estão erradas as interpretações que procuram racionalizar o convite a Machado reduzindo a questão a uma provocação política e interpretando-a numa grelha de leitura política. Assim, ignoram o perigo mais grave e propõem uma resposta desarmante. A mais arriscada dessas respostas é colocar o debate no terreno da liberdade de opinião, precisamente o que serve a defesa ensaiada por Goucha (e de que aparentemente se arrependeu, ao suspender a rubrica). Acusar uma putativa “deriva racista e fascista” nos media portugueses é uma hipérbole tremendista. Discutir o Machado como se o coitado estivesse privado dos seus direitos de expressão é pornográfico, o homem diz o que quer e publica o que quer e não vejo que, se as televisões não se sentirem obrigadas a erguer-lhe um pedestal, isso constitua algum ato de censura ou diminuição da democracia.

Pode-se abundar na questão Machado como se fosse reveladora de tendências de fundo da sociedade portuguesa, isso não o torna socialmente relevante. É e será uma nulidade política. Não é revelador de nada, senão de um bando de delinquentes. Criar uma querela bizantina sobre os direitos do coitado, que alguém até tratou como um “preso político”, é somente prova de desnorte e desleixo. Do mesmo modo, pensar que esta compungida prestação do delinquente desencadeia uma avalanche de monstros nazis é efabulação (e muita gente podia ter poupado alarmismos embaraçosos).

De tudo, o que verdadeiramente me incomoda é que esta questiúncula, provocada por uma escolha publicitária que mostra como, na luta por umas imediatas receitas de bilheteira, um programador até pode utilizar a promoção da indiferença perante as violências racista e fascista e outras barbaridades, oculta o que é verdadeiramente perigoso. É mesmo essa guerra sem freio pelas audiências. Esse é o vale tudo. Em modo suave, são os diretos de operações policiais, são os programas de entretenimento a fazer de informação, é uma programação escandalosa, é o tio que se zangou com a avó a ocupar o prime time. E esse vale tudo até já está entre nós em modo ambicioso, num canal perto de si, e tem estaminé no sofisticado populismo de gravata, que carimba as opiniões, que exibe a pretensão de falar com o povo, se não mesmo em nome do povo, com a demagogia e os factos ajeitados. Essa é a televisão de grande audiência que pode vir a ajudar um futuro partido de extrema-direita ou simplesmente a transformação de alguns dos partidos atuais. Ignorem o Machado na sua cela, há por aí gente mais perigosa e que parece mansa, mas que, como diria o Aleixo, não sendo o que parece, parece o que não é.

Artigo publicado em expresso.pt a 8 de janeiro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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