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Em Cancún, o optimismo encontra-se nas ruas

Quem ainda não se resignou está agora a organizar várias iniciativas para defender a justiça climática, lutando pelo fim do uso de combustíveis fósseis (carvão, gás natural e petróleo) e pela justiça social e de género.

Esta semana começou em Cancún, México, a 16a Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. Ao abrigo desta convenção, assinada em 1992, na Cimeira da Terra, os líderes mundiais encontram-se anualmente para discutir acordos internacionais que permitam reduzir as emissões de gases com efeito de estufa e assim encontrar uma solução para o problema das alterações climáticas. Em 1997 foi assinado o Protocolo de Quioto, que previa uma mera redução de 5% nas emissões até 2012, pelo que a discussão neste momento se centra em negociar um compromisso para o período pós-2012.

Podemos distinguir pelo várias posições distintas nas negociações climáticas. Um grupo de países desenvolvidos, incluindo os EUA e o Japão, tem defendido a substituição do Protocolo de Quioto por um acordo voluntário e mais modesto. A União Europeia, não tendo (como é costume, aliás) uma posição muito clara, tem defendido a manutenção de compromissos vinculativos e mais ambiciosos, mas ao mesmo tempo propõe novas formas de estender o mercado de carbono e, assim, permitir à indústria continuar a poluir o planeta. A maioria dos países africanos e os países insulares têm defendido a necessidade de os países desenvolvidos reduzirem drasticamente as suas emissões, para garantir a sobrevivência das suas populações. Os países em vias de desenvolvimento (China, Índia, África do Sul e Brasil) têm-se preocupado sobretudo em garantir que não enfrentarão num futuro próximo qualquer obrigação de controlo de emissões. Finalmente, os países da América Latina com governos de esquerda, integrados na ALBA, como a Bolívia ou a Venezuela, opõem-se ao mercado de carbono, na medida em que permite aos países ricos comprar o direito de poluir, e defendem cortes profundos nas emissões.

A última cimeira climática, realizada no ano passado em Copenhaga, contudo, demonstrou como esta variedade de posições tende a desvanecer-se no meio da realpolitik. Como podemos observar facilmente na história das negociações internacionais, o mundo de hoje é um mundo pós-colonial, com enormes desigualdades de poder. Assim se compreende como é possível fazer com que os países menos desenvolvidos, apesar de representarem a maior parte da população mundial, sejam normalmente convencidos (à força, se preciso) a assinar acordos que lhes são prejudiciais.

O Acordo de Copenhaga não é diferente neste aspecto. Este acordo, negociado secretamente entre os EUA e um punhado de países mais industrializados, foi inicialmente recusado pela maioria dos países presentes na cimeira de Copenhaga, não tendo sido reconhecido como um acordo oficial das Nações Unidas. Durante este ano, contudo, um conjunto de manobras de charme e de ameaças levou a que a maioria do mundo se conformasse a um acordo que é meramente voluntário. Apenas os países da ALBA e alguns outros países menos desenvolvidos o recusaram.

Sabemos hoje, graças às previsões realizadas por cientistas, que os compromissos do Acordo de Copenhaga, mesmo que sejam cumpridos, são claramente insuficientes. Existe hoje o sério risco, portanto, de no final deste século enfrentarmos um aumento da temperatura média global de 5oC. Para efeitos de comparação, podemos ver que a última vez que isto aconteceu na Terra foi há 55 milhões de anos, neste caso obviamente por motivos naturais, quando atravessamos a última grande extinção em massa. Não podemos saber exactamente como será o nosso futuro caso não alteremos o rumo, mas não será certamente fácil.

Muitos/as ambientalistas, perante a disparidade entre os apelos da ciência e a inacção dos governantes dos países industrializados, cederam ao desespero. Alguns/Algumas baixam os braços e dizem que não há nada a fazer. Outros/as, como o famoso biólogo James Lovelock, aderem ao eco-fascismo, defendendo que o problema só se resolve com uma ditadura. Mas também há quem não desista.

Quem ainda não se resignou está agora a organizar várias iniciativas para defender a justiça climática, lutando pelo fim do uso de combustíveis fósseis (carvão, gás natural e petróleo) e pela justiça social e de género. Em Cancún, a Via Campesina juntará milhares de agricultores/as e activistas no Fórum Global Alternativo pela Vida e pela Justiça Social e Ambiental. Movimentos sociais da América Latina e do Estado Espanhol, entretanto, vão encontrar-se no Espaço Climático, enquanto que outros movimentos sociais de todo o mundo estarão no KlimaForum10, um fórum de movimentos que sucede ao realizado no ano passado em Copenhaga. Os próximos dias serão, portanto, preenchidos com debates, oficinas e protestos de rua, através dos quais os povos se esforçam para fazer com que a sua voz chegue à fortaleza onde estão reunidos os líderes mundiais, rodeados de polícia armada até aos dentes.

Nestes protestos, como em tantos outros que se realizarão pelo mundo fora, reside o optimismo. Quando as pessoas se organizam e defendem os seus direitos, a balança do poder tende para o seu lado. Quando desistem, quem lucra com a destruição do planeta fica a ganhar. Até que, no fim, todos/as perdemos.

Sobre o/a autor(a)

Ricardo Coelho, economista, especializado em Economia Ecológica
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