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Elogio à Grécia

Não estando preocupada em ser o bom aluno que tudo consente na esperança de que reconheçam a sua humildade, a Grécia está sim empenhada em recusar e denunciar a forma perfeitamente míope como a Europa reagiu à presente crise.

Numa recente entrevista dada à RTP, a filha do farmacêutico que se suicidou há um mês e meio em frente ao parlamento grego explicou a razão por que a RTP foi a única estação estrangeira com quem falara até então: por ser a "televisão de Portugal, um país corajoso como nós...". Mal sabe a senhora que a coragem portuguesa tem consistido em jurar vezes sem conta que não somos como os gregos. Mal sabe a senhora também que a forma como a austeridade tem sido recebida por cá está muito longe da insatisfação manifestada não só pelos gregos, mas também pelos espanhóis, pelos italianos ou mesmo pelos franceses.

É sabido que estes continuam a não ser dias fáceis para a Grécia e para os gregos. Pelo contrário, entre contínuas acusações de irresponsabilidade, convites à saída do euro e ultimatos para que as novas eleições não resultem na vitória dos perigosos radicais do Syrisa, os gregos têm sido de facto votados a um vergonhoso isolamento internacional. Aliás, a forma como a Grécia tem sido tratado pelos restantes Estados-membros europeus representa provavelmente o maior sinal de debilidade da União Europeia desde a sua formação. No entanto, de forma quase surpreendente, os gregos não se têm vergado perante toda a pressão internacional que sobre eles recai. Pelo contrário, demonstram de forma crescente, já não apenas nas ruas mas também nas urnas, a sua rejeição da receita imposta cujos resultados estão à vista.

Não querendo resumir o posicionamento de todos os gregos ao que vem sendo defendido pelo Syriza, não deixa no entanto de ser elucidativa a linha argumentativa seguida por esta força política. E também não será por acaso o crescente apoio que tem recebido entre o eleitorado grego. Por exemplo, Alexis Tsipras defende não querer sair do Euro, mas sim lutar contra um problema europeu, sublinhando não estar apenas em causa o futuro dos gregos, mas sim o futuro da Europa. Sobre a austeridade, relembra que apesar das duas tentativas de resgate, a Grécia continua em recessão, o que demonstra bem a necessidade de mudança de estratégia. Inclusive para que o dinheiro dos contribuintes europeus não seja desperdiçado. Radicalismo? Não estou a ver onde. Populismo? Pelo contrário, chamar-lhe-ia lucidez.

Não estando preocupada em ser o bom aluno que tudo consente na esperança de que reconheçam a sua humildade, a Grécia está sim empenhada em recusar e denunciar a forma perfeitamente míope como a Europa reagiu à presente crise. Fê-lo recentemente nas urnas e tudo indica que voltará a fazê-lo já em Junho com ainda maior convicção. Cerca de 2500 anos depois, a Grécia continua a dar lições de democracia ao mundo. Agora como então, o mundo teima em não lhe agradecer.

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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