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Eles vivem por cima das nossas possibilidades

Na bolsa portuguesa, as vinte maiores empresas viram a sua cotação cair 28% em 2011 e cortaram 11% nos salários dos trabalhadores. Mas a austeridade fica sempre à porta de quem manda: feitas as contas, cada presidente ganhou mais 5,3% que no ano anterior.

O governo da troika corta a eito nos salários e aumenta os impostos a quem trabalha, enquanto promete que os sacrifícios são para todos. Mas basta olhar para a diferença salarial entre administradores e trabalhadores das empresas do PSI-20 e compará-la com as cotadas no índice IBEX da bolsa de Madrid para vermos que essas promessas valem ainda menos deste lado da fronteira.

O estudo divulgado esta semana no jornal Público ilustra bem essa diferença: enquanto um administrador em Portugal ganha em média 44 vezes mais que o trabalhador da mesma empresa, em Espanha essa diferença é cerca de metade. Pior ainda, esse fosso salarial aprofundou-se por cá entre 2010 e 2011 (de 37 vezes para 44) e diminuiu ligeiramente em Espanha (de 25,5 para 24,7).

Um exemplo: durante o ano de 2011, a capitalização bolsista da Galp Energia desvalorizou 21%, mas o seu presidente auferiu salários e prémios 22,9% acima do que tinha ganho em 2010, tornando-se no administrador mais bem pago no país. Ferreira de Oliveira ganhou assim 56 vezes mais que a média dos trabalhadores da GALP. Outro exemplo: o administrador da Semapa Pedro Queiroz Pereira ganhou em 2011 mais 41% em salários e prémios que no ano anterior, enquanto a empresa que gere se despenhava na bolsa, perdendo 35% do seu valor. Aqui a diferença de remuneração é de 57 vezes mais do que a média dos trabalhadores da Semapa.

Se juntarmos a esta prática corrente das grandes empresas da nossa praça financeira a emigração fiscal para a Holanda, a fuga de capitais para off-shores e a distribuição de dividendos generosos aos acionistas, percebemos melhor a resposta dada pelo eleitorado grego à injustiça da austeridade, subscrita no memorando do governo da troika agora derrotado.

Para vencer a crise, comecemos então por derrotar quem está a lucrar com ela à custa de tantas vidas sacrificadas: são quem continua a viver por cima das nossas possibilidades e a afundá-las cada vez mais.

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