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É preciso reescrever a história?

Há que saber olhar o passado de forma crítica, para que ele não tenha a tentação de repetir-se.

A História que foi escrita é uma narrativa mitológica que cristalizou uma memória seletiva. Essa narrativa veicula uma versão edulcorada do passado, que conserva os aspetos que considera dignos de glorificação e oculta toda a opressão de que esse passado foi feito.

O imaginário nacional permanece dominado pela litania celebratória da expansão marítima e pela nostalgia colonial. As páginas desta História estão repletas de grandes feitos, navegações, descobertas, avanços científicos, encontros e misturas de gentes e culturas, mas omitem a subjugação, a ocupação, a escravatura, a violência do colonialismo e também a resistência dos oprimidos.

Os mitos lusotropicalistas da vocação miscigenadora e do colonialismo suave usados pelo Estado Novo para justificar a manutenção do império permanecem vivos, continuando a ser reproduzidos de forma acrítica e anacrónica.

Questionar esta memória histórica, na qual se alicerça uma grande parte da identidade nacional, não é só necessário, como inevitável. Não como exercício de autoflagelação, mas porque esta História deixou legados que perduram na atualidade e que devemos reconhecer e enfrentar enquanto comunidade nacional. Os monumentos, estátuas e outros dispositivos de cristalização de uma certa memória histórica olham para o passado, mas falam para o presente.

O tráfico transatlântico de pessoas escravizadas forjou uma hierarquização social que se serviu de uma ideologia racista para impor a supremacia branca e a exploração, inferiorização e desumanização das pessoas africanas. Esta hierarquização não acabou com a abolição da escravatura, manteve-se ao longo do tempo, atravessando o colonialismo e chegando ao presente, no qual se continua a manifestar através da discriminação racial e das desigualdades daí resultantes.

A reprodução de discursos toldados por uma visão turva da História reitera esta hierarquização. É uma narrativa que mistifica, exclui, discrimina e violenta e é por isso que é cada vez mais contestada. A sua perpetuação tem motivado um esforço obstinado de deslegitimação e estigmatização das pessoas que ousam questioná-la. Retratando-as como ignorantes ou perigosas iconoclastas que querem destruir monumentos, os guardiães da memória histórica e da identidade pátria procuram silenciá-las e assegurar a sobrevivência dos mitos nacionais. Se se tratar de pessoas negras, a tentativa de silenciamento pode ganhar contornos de linchamento público ou de apelos à deportação. “Não discutimos a pátria e a sua História”, como prescreveu Salazar.

Mas a História e a pátria devem ser discutidas, assim como os monumentos que as “contam” no espaço público. Não podemos voltar atrás no tempo e mudar a História, nem é isso que se pretende. Mas podemos (e devemos) mudar o modo como a olhamos e contamos no presente. Em pleno século XXI, não podemos reproduzir o discurso anacrónico de séculos passados. Há que saber olhar o passado de forma crítica, para que ele não tenha a tentação de repetir-se.


Artigo publicado no Expresso a 19 de março 2021

Sobre o/a autor(a)

Professora. Dirigente e deputada do Bloco de Esquerda
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