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Dois séculos de fake news

Agora que Marcelo sugeriu que o Estado financie a comunicação social para evitar o seu estrangulamento é relevante a definição de padrões de referência.

Em 1835, “The New York Sun” publicou uma notícia chocante: John Herschel, um reconhecido astrónomo britânico a trabalhar num observatório na África do Sul, teria descoberto na superfície da Lua, com o seu potente telescópio, algumas presenças surpreendentes, como cabras de pele azul, um imponente templo de safiras e, pior, homens-morcegos gigantes em animado colóquio. Foi uma sensação. A venda do jornal subiu de oito para 19 mil exemplares por dia, fazendo dele o jornal com maior difusão no mundo. Mas era tudo inventado pelo engenhoso Richard Adams Locke, o diretor do jornal, que contava com a dificuldade de comunicação com a distante África do Sul para que o inocente Herschel não desmentisse a fabricação.

Duzentos anos de mentiras

As fake news teriam quase dois séculos, a contar deste episódio, se não tivesse havido antes algum expediente de mentira e de nevoeiro. Ora, os registos indicam muitos outros exemplos anteriores: um opúsculo de 1654, publicado na Catalunha, anunciava a descoberta de um monstro com pernas de cabra, um corpo humano e sete braços e sete cabeças. Antes disso, em 1611, um panfleto publicado em Inglaterra versava sobre uma mulher que, no outro lado do Canal, teria vivido 14 anos sem se alimentar. Fantasmagorias, fábulas, calúnias, boatos, tudo isso tem a idade da fala e da comunicação.

O que a história de “The New York Sun” tem de particular, e provavelmente não de original mas ao contrário desses opúsculos catalão e inglês, é que a mentira foi construída a partir de um suporte de comunicação que pretensamente assegurava a objetividade e rigor da notícia. A mentira teve efeito porque era apresentada por quem parecia garantir o acesso à verdade. Ora, essa tecnologia da falsificação ganha uma dimensão universal com os meios de comunicação de massas, os jornais, as rádios, depois a televisão. Agora, as redes sociais na internet não seguem exatamente o mesmo padrão porque, ao contrário dos meios de comunicação das gerações anteriores, sobrepõem inúmeros canais em simultâneo: onde a centralidade da informação exibia a medida da sua credibilidade, agora é a dispersão e a intensidade do efeito de bombardeamento que criam a transmissão do conteúdo.

A morte da verdade

As fake news recentes mais famosas, que o Papa apoiava Trump ou que Hillary Clinton vendeu armas ao Estado Islâmico, nem pretendem parecer verdade, mas têm que ser multiplicadas de tal forma que se torne verosímil pensar que “toda a gente” acredita na mentira, e portanto é uma quase-verdade. Michiko Katukani, depois de uma longa carreira como crítica literária em “The New York Times”, dedicou-se a discutir este efeito de ilusão. Num livro recentemente traduzido em português, “A Morte da Verdade” (2018, Presença), Katukani usa o conceito de Arendt do “súbdito ideal do regime totalitário”, “aquele para quem deixou de existir a diferença entre facto e ficção (isto é, a realidade da experiência) e a diferença entre o verdadeiro e o falso (isto é, os critérios do pensamento)”, para descrever este regime de pós-verdade que se baseia na inundação do mundo por conteúdos irrelevantes ou falsos.

Agora que Marcelo sugeriu que o Estado começasse a financiar a comunicação social para evitar o seu estrangulamento, nomeadamente por via da sua substituição por esta avalancha de tecnologias das fake news, mais relevante se torna a definição de padrões de referência e de confiança que criem uma âncora contra o populismo, a política suja e os expedientes, desde os que deram fama ao diretor de “The New York Sun” há 200 anos até aos que deram as presidências a Trump e a Bolsonaro. Mas se a pergunta for se ainda pode haver comunicação independente, a resposta é negativa, mas não está tudo perdido. Não é independente de poderes económicos, não sei se será independente de governos, mas ainda pode ser jornalismo se recusar usar a mentira como forma de vida.

Artigo publicado no jornal “Expresso” de 1 de dezembro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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