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A discreta “estratégia de privatizações” do PS

O programa económico de António Costa anuncia uma nova "estratégia de privatizações". Mas esconde o que pretende vender.

Portugal paga 8800 milhões de euros por ano em juros da dívida. A receita da privatização da TAP cobre, portanto, cerca de dez horas de serviço da dívida pública. Diante deste escândalo, até o Partido Socialista, que defende a venda de 49% da TAP, explodiu em brados.

Para além da entrega da TAP, importa conhecer o programa do PS quanto a futuras privatizações. Desengane-se quem procurar no “cenário macro-económico” ou no programa eleitoral do PS o compromisso de parar de privatizar, muito menos o de recuperar para a esfera pública os bens estratégicos vendidos (a exceção que confirma a regra é a EGF/Valorsul, um negócio ilegal que o PS admite reverter “desde que tal não implique o pagamento de indemnizações ao concorrente escolhido”).

Mas a política do PS não é só manter as atuais privatizações. Pelo contrário: o “cenário macro-económico” define uma nova "estratégia de privatizações e concessões", acompanhada de "um plano público que defina os objetivos a atingir" (p.75 do “cenário macro-económico”). "Sempre que a privatização ou concessão seja a solução adotada, interessa fazer uma análise objetiva sobre o método a prosseguir", nomeadamente sobre "as condições de efetiva supervisão e regulação das atividades a privatizar ou concessionar" (p. 73, idem).

A “estratégia de privatizações e concessões” de António Costa, explicada no seu “cenário macro-económico” é regulada e regulamentada, virtuosa e monitorizada, orientada e transparente. Nada em comum a da direita (exceto o facto de também privatizar…) Por contar aos eleitores, fica o plano de privatizações e concessões, uma das partes escondidas no programa socialista.

Não espanta que António Costa se esqueça de explicar o que faria no governo, quando tudo faz por esquecer o que o PS ainda há pouco fez: “O governo PSD/CDS interpretou a necessidade de adoção de reformas estruturais como um cheque em branco para promover a privatização de empresas públicas sem acautelar a defesa do interesse superior dos cidadãos (...)”. Perdão?! De uma penada, Costa varre Sócrates, Teixeira dos Santos, a lista de privatizações do PEC 4 e o memorando com a troika.

Para pedir “confiança” hoje, o PS precisa de esconder o que fez ontem e o que planeia fazer amanhã.

Apesar do esforço, Passos Coelho não conseguiu bater o record histórico de privatizações, conquistado pelo Partido Socialista sob o mandato de Guterres. Da da Galp à EDP, da Cimpor à Portugal Telecom, sempre privatizações que defenderam “o interesse superior dos cidadãos”.

Apesar do esforço, Passos Coelho não conseguiu bater o record histórico de privatizações, conquistado pelo Partido Socialista sob o mandato de Guterres. Da da Galp à EDP, da Cimpor à Portugal Telecom, sempre privatizações que defenderam “o interesse superior dos cidadãos”.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e dirigente do Bloco de Esquerda. Jornalista.
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