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Diretor vs. Candidato. Quem vence?

Não tendo gostado das imagens do incumprimento das orientações para realização das touradas, o diretor regional da Saúde dos Açores cancelou futuros eventos. Mas como é candidato, em menos de 24 horas, deu o dito por não dito.

E quando pensamos que já não há nada que nos possa surpreender, eis que o episódio “tourada não, tourada sim” vem demonstrar o conflito entre aquela que é a responsabilidade e a ambição.

Não foi há muito tempo que o, ainda, diretor regional da Saúde referia, em entrevista à imprensa local, que uma carreira política não estava nos seus horizontes. Bonito de se dizer, difícil manter a coerência.

Triste a sociedade que lê a associação da palavra “carreira” à palavra “política”. Mas continuemos.

Não me admira, nem me indigna o facto do cidadão querer participar na vida política da sua comunidade. Surpreende-me é a desfaçatez em ser diretor regional da Saúde e, simultaneamente, ocupar o 2.º lugar de uma lista candidata a deputados/as. Mas isso de consciência, cada um com a sua.

“Tourada sim, tourada não” foi o mais recente episódio que demonstra a incoerência resultante do conflito de interesses. Bem ao jeito do épico “irrevogável” de Paulo Portas, então ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, quando apresentou a sua demissão. Ao fim de quatro dias, Paulo Portas alterava o sentido da palavra irrevogável, voltando atrás com a sua palavra.

Tiago Lopes, na primeira pessoa, protagonizou um momento semelhante, levando menos tempo para voltar atrás na sua decisão.

Não tendo gostado das imagens e vídeos que documentavam o incumprimento das orientações definidas para a realização das touradas de praça, o diretor regional da Saúde, usando das suas funções e responsabilidade, cancelou futuros eventos daquela natureza. No entanto, em menos de 24 horas, o candidato ponderou as consequências que a sua decisão poderia representar no resultado eleitoral. Qual Saúde, qual quê?

Após uma reunião com os autarcas dos dois concelhos e interessados nos eventos, lia-se em comunicado que haviam chegado a “acordo”. É suposto a Autoridade de Saúde estar a negociar? Já fizeram “acordos” ou comunicados conjuntos com outras organizações ou representantes de setores económicos?

Bem sei que é complicado ler “diretor” e “candidato”, sabendo que estamos a falar da mesma pessoa. O erro não é meu. É, sim, de quem consegue fazer das pessoas fantoches.

No entanto, este episódio gerou mais insegurança nas pessoas, pois quando se percebe que há um conflito de interesses entre o diretor e o candidato, e que, em menos de 24 horas o que era já não é, ficamos sem um exemplo sério de coerência.

Avanços e recuos não resultam na Saúde, só dão jeito à campanha política.

Resumindo: o Sr. diretor ordenou o cancelamento, mas o candidato recuou. Simples.

Sobre o/a autor(a)

Deputada do Bloco de Esquerda na Assembleia Regional dos Açores. Licenciada em Educação. Ativista pelos Direitos dos Animais. Coordenadora do Bloco da Ilha Terceira
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