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Dignidade e honra

"Temos dignidade e honra. Foi o povo que nos confiou o poder e hoje devolvemo-lo", afirmou ontem o primeiro-ministro búlgaro, na hora da demissão do Governo contestado nas ruas por causa do aumento brutal do preço da eletricidade e da corrupção.

Ouvidas em Portugal, as palavras de Boiko Borissov soam estranhas. Assim de repente, estão a ver algum governante contestado por não cumprir os seus compromissos, falhar todas as metas a que se propôs e fazer no Governo o contrário do que prometeu em campanha, a demitir-se invocando a sua "dignidade e honra"? 

Em vez disso, temos um Governo acossado pelo povo onde quer que vá, indiferente à realidade que desmente dia após dia as suas previsões: no défice e a dívida, no impacto da austeridade na recessão económica, no desemprego. Falhanço após falhanço, chegámos ao ponto em que estamos. 

Ao mesmo tempo que Borissov anunciava a sua demissão em Sófia, o ministro Vítor Gaspar admitia perante os deputados em São Bento que a recessão da economia portuguesa será o dobro da que previu há dois meses. Quanto à previsão para o desemprego, que também será revista em alta, Gaspar entende que ela "é quase indiferente para a vida das pessoas". 

As palavras do ministro das Finanças são um recado explícito a mais de 1 milhão de pessoas que vivem sem emprego em Portugal e a tantos outros que vivem sob a ameaça do despedimento: se procuram alguma esperança de ver a vida melhorar, então deixem de olhar para as previsões porque elas serão cada vez piores.

As próximas semanas serão decisivas para o futuro do governo da troika. Os funcionários do FMI, BCE e UE virão a Lisboa benzer mais cortes e dar a sétima nota positiva à catástrofe social instalada. Mas o povo irá mostrar nas ruas a 2 de março que é ele quem mais ordena e que a ordem é agora muito clara: demissão imediata deste Governo que nunca soube o que é honra e muito menos dignidade.

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