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Desempregados - É fazer tábua rasa!

Uma vez inscritos, os desempregados ficam à mercê de uma tecla enter em que se carrega levianamente. E eis que nos encontramos para nos proporem mais ações de formação. Aí de quem não comparecer ameaçado que foi por 16 linhas e “convidado” apenas por duas em convocatórias de tipo standard.

Desta vez até concordo com a senhora que trabalha no IEFP. Costumam os portugueses dizer, e ela também o disse, desculpando-se, que quando algo não corre bem, há uma falha, um deslize, um imprevisto ou um vício de forma, a culpa "é do sistema".

Não há manual de recursos humanos que não desmonte tal postulado em três tempos. Ou porque os objetivos a atingir não estão bem definidos, ou porque as tarefas não foram bem delegadas, ou porque não foi feita a respetiva verificação, há com certeza N explicações que escapam àqueles que não querem questionar os seus procedimentos e respetivos postos de trabalho.

Coloca-se, assim, a culpa no objeto exterior - a nós - o que é, naturalmente, mais fácil de encarar e, até, de resolver.

A verdade é que o sistema informático do IEFP foi mal concebido!

Uma vez inscritos, os desempregados ficam à mercê de uma tecla enter em que se carrega levianamente. As perguntas (ou consultas, como se diria em linguagem de acess ou programação informática) são formuladas da forma mais simplista possível. Qualquer coisa como: Está desempregado? Critério F9; Recebe subsídio? Critério F5; Frequenta formação? Critério F2. E, uma vez cruzadas as três variáveis que importam, eis que surge a listagem. Milhares de linhas com as colunas pretendidas: nome do desempregado e respetiva morada.

A culpa é, de facto, do sistema. Pois é! Mas não do sistema informático. Antes, deste sistema desumano e incompetente que trata os desempregados como números, como coisas, como estatísticas. Deste sistema que prossegue políticas às quais as pessoas nada importam!

Depois será só personalizar o cabeçalho e fazer copy/paste da lengalenga do costume. Duas breves linhas para a convocatória mencionando o dia e a hora e as restantes dezasseis para as ameaças: "A falta de comparência implica o incumprimento do dever de comparência (...)", previsto no decreto tal, alínea tal com data de tal e "a falta não justificada a esta convocatória (...) representa uma actuação injustificada, determinante da anulação da inscrição (...) e consequente cessação das prestações de desemprego" e por aí adiante conforme disposto nos artigos e nos termos legais.

Eis que nos encontramos, pois, novamente para nos proporem ações de formação. Sucede, porém, que alguns já as haviam declinado e estão ali pela segunda vez sujeitos a mais do mesmo. Sucede, porém, que muitos até já as haviam feito e - pasme-se - através do próprio IEFP. Sucede, porém, que outros são ex-trabalhadores estudantes e que, por isso, ainda que sem trabalho, prosseguem os seus estudos. Outros há, ainda, que frequentam mestrados e doutoramentos.

"Apresente a sua justificação, diz a senhora, e o director analisará. É que, sabe?, isso não aparece no sistema".

Então mas não houve quem, por antecipação, estudasse os processos daquelas pessoas aparecidas nas listagens? Então, mas não se sabe qual é o nível de qualificação das pessoas ali sentadas? Então, admite-se que a pergunta de partida seja "todos aqui têm pelo menos o 11.º ano?" quando, no final, se conclui que estamos perante um leque de licenciados? Então, mas o desempregado que já fez o alemão pode ser chamado para o alemão outra vez? Assim?

A culpa é, de facto, do sistema. Pois é! Mas não do sistema informático. Antes, deste sistema desumano e incompetente que trata os desempregados como números, como coisas, como estatísticas. Deste sistema que prossegue políticas às quais as pessoas nada importam! Nem as suas qualificações, nem experiências, nem investimentos, nem carreira, nem nada. Um sistema nada empático para o qual o desempregado não possui dimensão humana e representa um encargo e um problema que urge mascarar estatisticamente fazendo dele, à partida, tábua rasa.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista, desempregada, dirigente do Bloco de Esquerda.
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