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Derrotar Le Pen aprendendo com Trump

A retórica inflamada e dramatizada do tudo-e-todos-contra-Le-Pen é música para os ouvidos da extrema-direita.

É dessa bipolarização que se alimenta Le Pen e é com ela, através dela e por causa dela que a sua candidatura tem, desgraçadamente, ganho força nas sondagens desde domingo passado, subindo 5% face a pesquisas anteriores.

Na verdade, há anos que a Frente Nacional tenta colocar-se na posição em que os "arautos do mais do mesmo" agora a colocam: establishment vs Le Pen. É assim mesmo, sem tirar nem pôr, que a extrema-direita pretende ser vista e compreendida pela população. Essa foi também a estratégia prosseguida por Trump e foi-o, convém sublinhar, desde as primárias republicanas. Aliás, no duelo final com Hillary, que todos os especialistas previam que fosse desequilibrado a favor da candidata democrata, Trump não só não abandonou ou moderou essa estratégica, tal como recomendavam e aconselhavam os "especialistas" (a única hipótese para sair vencedor, diziam), como a intensificou de forma agressiva.

E é assim porque, nos Estados-Unidos como em França, cresceu na população um desprezo político pelo establishment que é proporcional à desconsideração moral que esse mesmo establishment manifestou durante décadas pelos seus povos. É justamente dessa desconfiança recíproca entre as "elites" e o "povo" que decorre o tempo de polarizações que vivemos, do qual se pode gostar mais ou menos, mas que não deve ser ignorado.

Jean-Luc Mélenchon, felizmente, não ignorou essa realidade. Na campanha eleitoral, nos comícios e nos debates televisivos foi a voz de um movimento e de um projeto político que, com inteligência, audácia e preparação, soube enfrentar o establishment, por um lado, e opor-se à Frente Nacional, por outro, não deixando nunca que Le Pen aparecesse aos olhos dos franceses como a única alternativa ao "mais-do-mesmo". Mais cedo do que tarde merecerá um agradecimento generalizado por tê-lo feito.

O seu percurso de combate à extrema-direita e particularmente à família Le Pen fala por si. No pós-eleições, recusou o tom dramático do establishment e a sua chantagem do "mal menor". Não podendo exibi-lo na lapela, o establishment logo tratou de apontar as armas na direção de Mélenchon, deixando Le Pen, em alguns casos, em segundo plano, uma estratégica desesperada que não pode ser dissociada de três circunstâncias: 1) o candidato da França Insubmissa obteve o triplo da votação do candidato oficial do PSF; 2) ficou praticamente empatado com o candidato da direita tradicional; 3) no início de junho realizam-se as eleições legislativas em França e todas as previsões vão no sentido do aprofundamento da crise dos partidos tradicionais. Nos últimos dias, na consulta que fez às bases do movimento sobre o sentido de voto na 2ª volta, Mélenchon excluiu Le Pen do leque de opções (Macron, voto nulo ou voto em branco), circunstância ignorada, não por acaso, pelos seus críticos. Sondagens recentes mostram que a larguíssima maioria dos eleitores de Mélenchon votará Macron, ao contrário do que sucederá com os apoiantes de Fillon, que se mostram divididos entre Macron e Le Pen.

Para todos os "insubmissos" é claro o propósito de derrotar a extrema-direita na 2.ª volta das presidenciais francesas e sobretudo depois, seja qual for o resultado, até porque a Frente Nacional, infelizmente, é hoje senão o maior e mais organizado partido do espectro político francês, um dos maiores e mais influentes. Mas é preciso fazê-lo com a inteligência que o movimento revelou na campanha e não oferecendo à extrema-direita os brindes que ela deseja receber.

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