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De uma vez por todas!

O grande vencedor que emergiu da nuvem é o Hamas.

 

O mantra desta vez foi “de uma vez por todas”.

“Temos de por fim a isto (aos foguetes, ao Hamas, aos palestinianos, aos árabes?), de uma vez por todas!” – eis o grito que se ouvia, dúzias de vezes por dia, nas televisões, dos moradores das cidades e vilas duramente atingidas do sul de Israel.

A ponto de o novo mantra ter deslocado o slogan que dominou durante várias décadas: “Disparar e acabar com aquilo!”

Não funcionou.

* * *

O grande vencedor que emergiu da nuvem é o Hamas.

Antes deste round, o Hamas era presença importante na Faixa de Gaza, mas praticamente não era visto como organização com estatura internacional. A face internacional do povo palestiniano era a Autoridade Nacional Palestina de Mahmoud Abbas.

Já não é.

A Operação Pilar de Nuvem deu amplo reconhecimento internacional ao miniestado do Hamas em Gaza. (“Pilar de Nuvem” é o nome oficial em hebraico, embora o porta-voz do exército tenha decretado que o nome em inglês, para consumo de estrangeiros, deveria ser “Pilar da Defesa”).

Chefes de vários estados e muitos ministros e dignitários estrangeiros já fizeram a necessária peregrinação à Faixa.

Primeiro, chegou o poderoso e imensamente rico emir do Qatar, proprietário da rede Al- Jazeera. Foi o primeiro chefe de Estado a pôr os pés na Faixa de Gaza. Depois, chegaram o primeiro-ministro egípcio, o ministro de Relações Exteriores da Tunísia, o secretário da Liga Árabe e vários ministros de Relações Exteriores de países árabes (exceto o de Ramallah).

Em todas as deliberações diplomáticas, Gaza foi tratada como Estado de facto, com governo de facto (o Hamas). Nem os média israelitas escaparam. Os israelitas rapidamente perceberam que qualquer acordo, para ser efetivo, teria de ser construído com o Hamas.

Entre o povo palestiniano, o prestígio e a estatura do Hamas alcançaram as alturas. Sozinha, a Faixa de Gaza, menor que qualquer condado médio dos EUA, enfrentou toda a gigante máquina de guerra dos israelitas, das maiores e mais eficientes do mundo. Não sucumbiu. Na melhor das hipóteses, o resultado militar só pode ser apresentado como um empate.

E um empate entre a minúscula Gaza e a poderosa Israel significa uma vitória de Gaza.

Quem lembra hoje a orgulhosa declaração de Ehud Barak, no meio da guerra: “Não vamos parar até que o Hamas caia de joelhos e suplique por um cessar-fogo”?

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E em que ponto fica Mahmoud Abbas? Na verdade, em ponto algum.

Para qualquer palestiniano comum, esteja em Nablus, Gaza ou Beirute, o contraste é flagrante: o Hamas tem orgulho, coragem, decisão; e a Fatah é frágil, submissa e desprezada. Na cultura árabe, honra e orgulho têm um papel central.

Depois de mais de meio século de humilhação, qualquer palestiniano que tenha lutado contra a ocupação é herói das massas árabes, dentro e fora do país. Abbas está identificado só com a íntima colaboração entre as suas forças de segurança e o odiado exército israelita ocupante. E, facto decisivo: Abbas nada tem para mostrar.

Se Abbas pudesse exibir, pelo menos, uma grande realização política em troca do muito que padeceu, a situação talvez fosse outra. Os palestinianos são gente sensível. Se Abbas tivesse dado pelo menos um passo que o aproximasse de ter conseguido qualquer coisa que se assemelhasse a algum Estado palestiniano, a maioria dos palestinianos provavelmente diria: “pode não ter glamour, mas, pelo menos, consegue coisas”.

O que acontece é exatamente o contrário. O Hamas armado consegue resultados; o não violento Abbas nada consegue. Como me disse um palestiniano: “Ele (Abbas) deu-lhes tudo (aos israelitas), calma e segurança. E o que obteve [ou obtem] em troca? Os israelitas cospem na cara dele!”.

Essa mais recente rodada de violência reforçará uma convicção de todos os palestinianos: “Os israelitas só entendem a linguagem da violência!” (os israelitas, claro, dizem o mesmo dos palestinianos).

Se, pelo menos, os EUA permitissem a Abbas obter o reconhecimento da Palestina como estado não-membro, como observador, por resolução da ONU, Abbas ainda teria algo a apresentar para se promover frente ao Hamas. Mas o governo de Israel está decidido a impedir, custe o que custar, que esse reconhecimento aconteça. A decisão de Barack Obama, já depois de reeleito, de bloquear todos os esforços palestinianos na ONU, é um apoio direto ao Hamas e uma bofetada nos “moderados”. A negligente visita de Hillary Clinton a Ramallah esta semana foi interpretada nesse contexto.

Examinando de fora, isto parece completa loucura. Por que minar a influência dos “moderados” que querem e são capazes de fazer a paz? Por que promover os “extremistas” que se opõem à paz?

A resposta veio, plenamente declarada, da boca de Avigdor Lieberman, hoje o número 2 de Netanyahu: Lieberman quer destruir Abbas, para anexar a Cisjordânia e abrir o caminho aos colonos.

* * *

Depois do Hamas, o maior vencedor é Mohamed Morsi.

Aí está outro resultado quase inacreditável. Quando Morsi foi eleito presidente do Egito, a Israel oficial entrou em estado de histeria. Que horror! Os extremistas islâmicos tomaram o poder no mais importante país árabe! O nosso tratado de paz com nosso maior vizinho, foi-se pelo ralo!

Nos EUA, a reação foi praticamente idêntica a essa.

E hoje – quase quatro meses depois – aí está Israel, a ouvir com máxima atenção e reverência cada fala de Morsi. Morsi, ele, o homem que conseguiu pôr fim à destruição e à matança mútuas! Morsi, o grande pacificador! Morsi, o único homem capaz de fazer a mediação entre Israel e o Hamas! Morsi, o avalista do acordo de cessar-fogo!

É possível tal coisa? Será que falamos do mesmo homem? Do mesmo Morsi? Da mesma Irmandade Muçulmana?

Morsi, 61 anos – cujo nome completo é Mohamed Morsi Isa al-Ayyad (Isa é a palavra, em árabe, para “Jesus”, que é visto pelo Islão como um profetas) – é figura absolutamente desconhecida no cenário mundial. Apesar disso, hoje, todos os principais líderes políticos do mundo confiam integralmente nele.

Quando eu festejei, de todo o coração, a Primavera Árabe, tinha em mente gente como esse homem. Agora, praticamente todos os jornalistas, analistas, comentadores, ex-generais e políticos israelitas, que, antes, diziam os maiores disparates e “alertavam” contra os novos políticos árabes, não se cansam de elogiar o sucesso do acordo de cessar-fogo.

* * *

Durante a operação Pilar de Nuvem, fiz o que sempre faço nessas situações: assisto, alternadamente, aos canais israelitas de televisão e à rede Al-Jazeera. Volta e meia, quando me distraio e volto repentinamente a prestar atenção à televisão, fico sem saber onde estou, se lá, se cá.

Mulheres em prantos, feridos carregados, casas em ruínas, sapatinhos de crianças espalhados entre os escombros, famílias com malas às costas, tentando escapar. Cá, como lá, as cenas assemelham-se. Mas, sim: morreram 30 vezes mais palestinianos que israelitas – em parte por efeito do Domo de Ferro dos israelitas, de interceptação de mísseis, enquanto os palestinianos estavam absolutamente sem defesa alguma.

Na quarta-feira fui convidado para um programa a ser exibido pelo Channel 2, o mais popular (e o mais patriótico-nacionalista) em Israel. O convite, como já aconteceu várias vezes, foi cancelado no último momento. Se tivesse ido ao tal programa, só teria uma pergunta a propor aos israelitas:

Valeu a pena?

Todo o sofrimento, os mortos, feridos, a destruição, as horas e dias de terror, as crianças traumatizadas?

E, deve-se acrescentar, a cobertura infindável, 24 horas por dia, pelas televisões, com generais reformados sempre a repetir os press-releases do gabinete do primeiro-ministro. E as mais horrendas, as mais escandalosas ameaças, na boca de políticos e outras variantes de doidos, entre os quais o filho de Ariel Sharon, Gilad Sharon, que propôs a destruição total, de toda a cidade de Gaza e arredores, ou, melhor ainda, de toda a Faixa de Gaza.

OK. Tudo isso é passado. Estamos quase exatamente onde estávamos antes. A operação, chamada, em Israel, quase sempre, de “mais uma rodada”, não passou, de fato, de rodada – não levou a lugar algum; tudo ficou onde estava antes de a “rodada” começar.

O Hamas assumirá firmemente o controle da Faixa de Gaza, talvez mais firmemente do que antes. Os palestinianos odeiam Israel hoje, mais do que já odiavam. Muitos dos habitantes da Cisjordânia, os quais, durante a guerra saíram à rua aos milhares em demonstrações de apoio ao Hamas, votarão em ainda maior número a favor do Hamas nas próximas eleições. Dentro de dois meses, os israelitas votarão, depois da guerra, exatamente como votariam antes da guerra.

Os dois lados comemoram a sua grande vitória. Se se unissem e fizessem só uma festa, economizariam muito dinheiro.

* * *

Quais são, pois, as conclusões políticas?

A mais óbvia é: falem com o Hamas. Diretamente. Cara a cara.

Yitzhak Rabin disse-me, certa vez, como chegara à conclusão de que tinha de falar com a OLP, e diretamente com ela: depois de anos de oposição, acabara por entender que a OLP era a única força que contava. “Assim sendo, era ridículo só falar com eles através de intermediários”.

Vale exatamente o mesmo, no caso do Hamas. O Hamas está ali. Não vai desaparecer, nem partir. É ridículo, para os negociadores israelitas, sentarem-se numa sala do quartel-general da espionagem egípcia, nos arredores do Cairo, enquanto os negociadores do Hamas permanecem na sala ao lado, a apenas poucos metros de distância, com os egípcios, corteses, andando de um lado para o outro.

Ao mesmo tempo, ativar os esforços na direção da paz. A sério.

Salvem Abbas. De momento, não tem substituto à vista. Deem uma vitória imediata para contrabalançar as proezas do Hamas. Votem votar a favor da candidatura palestiniana ao estatuto de Estado na Assembleia Geral da ONU.

Façam a paz com todo o povo palestiniano, incluindo Fatah e Hamas – para poder pôr fim à violência,

DE UMA VEZ POR TODAS!

23/11/2012

Traduzido pelo coletivo da Vila Vudu, adaptado para Portugal por Luis Leiria

Sobre o/a autor(a)

Escritor israelita, jornalista, fundador do movimento de defesa da paz Gush Shalom.
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