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De luto

O povo e o país precisam de respostas mais profundas e é preciso explicar porque é que quase tudo falhou e se gerou uma incapacidade de prestar socorro a quem dele tanto precisava.

Passadas as eleições autárquicas é tempo de retomar a crónica de “opinião” no mediotejo.net. Pensei em vários temas que gostaria de abordar – o novo ciclo autárquico, o balanço de dois anos da governação, os desafios do próximo Orçamento de Estado… Mas a realidade é incontornável e impossível não falar sobre o que se passa no nosso país. A tragédia que vivemos nos últimos dias é muito difícil de explicar e as perguntas que ainda não tiveram resposta interpelam a responsabilidade política.

Aquilo a que assistimos nos últimos dias e aquilo a que assistimos em Pedrógão Grande exige uma resposta, exige ação. Um povo completamente desprotegido, em desespero, enquanto o inferno das chamas consumia aldeias e floresta é muito mais que uma imagem, é uma coisa que se cola à nossa pele, que marcará por muito tempo este país.

Não alinho nas respostas fáceis e no tom acusatório contra tudo e contra todos. Mas também não alinho em “apelos à resiliência”. Acredito que existam múltiplas causas para a tragédia, umas mais determinantes que outras, acredito que as condições climatéricas são complicadíssimas, acredito que os anos de abandono da floresta potenciam tudo o que aconteceu, assim como a expansão do eucalipto em prejuízo de outras espécies. Mas o povo e o país precisam de respostas mais profundas e é preciso explicar porque é que quase tudo falhou e se gerou uma incapacidade de prestar socorro a quem dele tanto precisava.

É uma questão de confiança. É isso que está em causa. É isso que é preciso reconstruir.

Não alinho nos pedidos de demissão porque sim, ou porque é preciso estar mais à frente na competição para abrir telejornais – o anúncio do CDS sobre a moção de censura é completamente descabido e até insultuoso para o país, sobretudo vindo de quem vem, com as responsabilidades governativas que teve em relação à floresta e na proteção civil.

Mas, reconstruir a confiança, implica responsabilidade de quem governa, de quem dirige os serviços que falharam. A demissão não é uma fuga, a demissão é um ato digno de um ou uma governante que falhou.

Faço votos para que não se perca muito mais tempo a estudar o que já foi estudado, a juntar relatórios a outros relatórios que ficaram perdidos no tempo. Diga-se a verdade ao povo e mãos à obra para todas as reconstruções.

Artigo publicado em mediotejo.net em 18 de outubro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Vereadora da Câmara de Torres Novas. Animadora social.
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