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Criptocenas

Todos os negócios fraudulentos funcionam melhor com uma regulação amiga. Já milhões perderam milhões na vertigem cripto? É o risco, estúpido. É deixar o mercado funcionar, que as boas criptomoedas hão-de emergir... e depois submergir.

O colapso da FTX é a mais recente das hecatombes que se têm multiplicado dentro do “ecossistema”, que inclui as (incorretamente) chamadas criptomoedas, outros “instrumentos” análogos, plataformas de troca, etc. A fragilidade deste negócio não tem nada de imprevisível ou sequer indesejado. A cripto moedas são um esquema de pirâmide agravado pelo desperdício e por uma inimputabilidade acrescida. Como qualquer projeto fraudulento, o propósito não é durar. O propósito é sacar o máximo de dinheiro aos incautos (dinheiro a sério, bem entendido), fechar a loja e fugir. A cobertura dada à ocultação de riqueza, a evasão fiscal ou as transações ilegais é um bónus e o seu verdadeiro valor de uso. No entanto, o negócio continua, graças a um intenso lobby político e vários expedientes de marketing. As criptomoedas seguem o manual de muitas outras bolhas financeiras com uma eficácia inexcedível:

1. Tudo isto é muito sofisticado

O primeiro ponto em comum com as outras bolhas especulativas é a ideia de que o produto em causa está na fronteira da inovação, que é o futuro da economia e que só os broncos é que não o percebem, por força de uma impenitente falta de visão. É por isso fundamental trabalhar com uma terminologia aparentemente técnica no plano “financeiro” e tecnológico. Quanto mais indecifrável, melhor. Menor será a possibilidade de que alguém perceba que o que está a ser vendido não tem nem pode ter qualquer valor, a não ser o que lhe é atribuído pela miragem de um enriquecimento rápido.

2. Não há duas criptos iguais

Depois das bitcoins, vieram as stablecoins, depois vieram “produtos” derivados vários, tokens, etc. e ainda não vimos nada, que o mundo da fantasia é inesgotável. O mais importante é criar uma diferenciação infinita em relação ao que veio (e colapsou) antes. Só assim se pode continuar a vender banha de cobra: mudando permanentemente o nome do produto.

3. Tudo o que é cripto se dissolve no offshore

Se vai criar uma criptomoeda, não se engane. Tem de ser num offshore. Quando se troca as supermoedas do futuro por euros e dólares velhos e bolorentos e se planeia fugir (com os euros e dólares, claro), convém montar operação num local em que o rasto seja difícil de seguir. Investidores descontentes podem tornar-se extremamente incómodos e os reguladores, mesmo que pouco diligentes, são sempre uma maçada.

4. Ter um ministro é bom, um Governo inteiro é melhor

Todos os negócios fraudulentos funcionam melhor com uma regulação amiga. Já milhões perderam milhões na vertigem cripto? É o risco, estúpido. É deixar o mercado funcionar, que as boas criptomoedas hão-de emergir... e depois submergir. Se o Governo criar benefícios e isenções fiscais, não só evita a tributação, como credibiliza a fraude, tratando-a como se fosse um investimento.

5. Quando tudo corre mal, a palavra de ordem é solidez

Entretanto, as criptocenas já têm uma história. E apesar de todo o marketing, o produto está a ganhar má fama, por força de tanto colapso em tão pouco tempo. Também aqui, a fantasia nunca pára. Algumas criptos indexam-se... a outras criptos. Outras asseguram que têm “reservas”. De quanto? Em quê? Vale tudo, desde que o investidor continue a pagar naquelas moedas ultrapassadas que já ninguém quer, a não ser os criptodonos. Quando tudo falha, o argumento derradeiro é pungente: se os bancos falham, porque é que nós também não havemos de falhar? As criptos são a legalização da burla.

O conceito de criptomoeda não tem sentido. O valor de uma moeda depende da legitimidade e garantia de um Estado. As moedas não vão à falência. Já agora, o conceito de criptoativo, que muitas vezes substitui o de criptomoeda, também não colhe. Um ativo financeiro tem de ter uma relação, ainda que indireta, com alguma forma de bem económico. As criptos não têm qualquer relação com nada na economia real. São bolinhas de sabão. E a todas acontecerá o que acontece às bolinhas de sabão. Qualquer criança sabe o que é.

Artigo publicado em Setenta e quatro a 17 de novembro de 2022

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputado e economista.
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