Contrarrevolução

porFernando Rosas

29 de abril 2024 - 19:52
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Ao contrário das FP-25, cujos membros foram presos e julgados, os chefes e quadros do MDLP ficaram impunes.

O ambiente que se vive por estes dias no país convida-me a escrever sobre a face oculta da Revolução de 1974/75 de que geralmente pouco se fala: a contrarrevolução que fluiu permanente e antagonicamente com aquela. Transmutado o golpe militar dos oficiais intermédios em processo revolucionário de massas claramente apontado contra os interesses oligárquicos do capital financeiro, dos grandes agrários ou das elites económicas e militares que sustentavam a ditadura, cedo estes passaram à conspiração subversiva e golpista contra a Revolução. A contrarrevolução não pretendeu envolver-se na luta política democrática sobre os destinos da Revolução que então abalava o país. Pretendia derrubar o curso revolucionário pela violência subversiva e pelo golpe armado, visando instaurar um novo regime autoritário e neocolonial.


O general Spínola foi a figura de proa da movimentação contrarrevolucionária. Derrotadas as tentativas golpistas de 28 de setembro de 1974 e de 11 de março de 1975 pela ação conjunta do MFA e da mobilização popular, a extrema-direita organizou-se clandestinamente em grupos terroristas com sede na Espanha franquista, responsáveis por inúmeros atentados bombistas e assaltos violentos contra as sedes e pessoas de partidos de esquerda e contra a embaixada de Cuba, de que resultaram dois diplomatas cubanos mortos. Uma dessas organizações foi o MDLP (Movimento Democrático para a Libertação de Portugal), responsável pelo assassínio à bomba, a 2 de abril de 1976, do padre Max, candidato da UDP às eleições legislativas, e da estudante Maria de Lurdes Correia, que seguia com ele no carro alvo do ataque bombista. O MDLP foi, mais tarde, em tribunal, considerado responsável por este atentado. Alguns operacionais das redes bombistas organicamente ligadas ao MDLP, foram julgados posteriormente em processos que condenaram “peixe miúdo”, mas pouparam os mandantes, como concluiu o jornalista Miguel Carvalho na importante investigação que conduziu sobre o assunto.

O MDLP era chefiado pelo general Spínola e da sua direção política (“gabinete político”) fazia parte, entre outros, o atual deputado e dirigente do Chega, Diogo Pacheco de Amorim. Desconheço se Diogo Pacheco de Amorim teve, ou não teve, alguma relação com a rede bombista do MDLP, mas o MDLP, do qual era dirigente político, teve. As atividades bombistas do MDLP continuaram após a institucionalização da democracia em 1976. Mas ao contrário das FP-25, cujos membros foram presos e julgados por atos de terrorismo, os chefes e quadros do MDLP ficaram impunes e nunca tiveram de responder pelo bombismo terrorista da responsabilidade desse movimento. Voltaram ao país sem nunca serem inquiridos, e o seu chefe, o general Spínola, foi mesmo agraciado com o marechalato.

Puderam assim, alguns deles, regressar discretamente à política, refugiados na área do MIRN ou do CDS. Foi o caso de Diogo Pacheco de Amorim, que naturalmente veio desaguar no Chega de que é deputado e alto dirigente. No passado dia 27 de março, com os votos da direita parlamentar, foi eleito vice-presidente da Assembleia da República. Com novas caras e processos novos, a velha contrarrevolução — a que sempre conspirou subversivamente contra a democracia e a Constituição — regressa, pela mão da direita tradicional, à proeminência institucional. Bem sei que já se fazem ouvir as vozes solenes do senso comum conservador contra a “armadilha binária”. No que me toca prefiro estar prevenido e atento contra a armadilha da normalização e do branqueamento da extrema-direita fascizante e do seu passado terrorista. Nas vésperas de celebrar os 50 anos do 25 de Abril, aquele foi um dia triste e perigoso para a democracia.

Artigo publicado no jornal “Expresso” de 24 de abril de 2024

Fernando Rosas
Sobre o/a autor(a)

Fernando Rosas

Historiador. Professor emérito da Universidade Nova de Lisboa. Fundador do Bloco de Esquerda
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