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Contra a pobreza, sem peias

Têm sido tomadas algumas medidas de reposição de direitos e justiça social perdidos durante o governo de direita. E, com certeza, regozijamo-nos todos com isso mas não chega, é poucachinho.

A pobreza parece ter-se instalado e sempre que as questões sociais são discutidas, o nosso objetivo é curto. Pensamos sempre em remediar. E cada vez mais se referem medidas: ora são medidas governamentais, ora são as autarquias. Uma sopa dos pobres que não acaba; um arranjo, um jeitinho. Os números dizem que um quarto da população portuguesa é pobre mas eu questiono-me sobre este cálculo. Julgo que precisamos de verificar este número e com urgência. É a partir de indicadores calculados na Segurança Social que determinamos o nível de pobreza mas temos de juntar a este total o número daqueles que não sendo verdadeiramente pobres (porque não recebem apoios sociais assim definidos) têm todo o tipo de dificuldades porque simplesmente os salários e as pensões não chegam. Um cidadão com 500 euros/mês não é considerado pobre mas as necessidades que sofre só podem ser enormes e a requerer ajudas sociais (do governo, da autarquia, da Santa Casa, dalguma IPSS); um cidadão que de repente é despejado e só consegue uma casa com uma renda quatro ou cinco vezes superior à que pagava, só pode entrar num ciclo de enormes dificuldades; um cidadão que levava uma vida mediana com 1200 euros/mês, com a atualização à inflação, sem ser pobre pelas tabelas oficiais, como é que vai fazer face ao aumento do custo de vida? Há pobres, sim e há outros tantos envergonhados, não declarados. A pobreza, apenas atacada às pinguinhas, só tende a aumentar. Para a sociedade portuguesa a pobreza é um vírus, não se extirpa e morre-se dela.

Temos de ousar lutar por mais. O SMN é curto; são curtos os aumentos em curso sejam nos salários sejam nas pensões. Um pensionista com uma pensão de 1200 euros, 68 anos de idade, previsivelmente apto a viver mais 20 anos, pode temer vir a passar fome. Ora, aí está um magnífico projeto para fim de vida. Inadmissível. Não me parece que queiramos política de paninhos quentes: mais um subsídio, mais um apoio social. Uma manta que não chega, uma manta que não queremos. A juntar ao tão propalado envelhecimento ativo, baseado na dignidade e independência, então é preciso equacionar o problema de forma a garantir que os nossos velhos conseguirão mesmo um fim de vida digno. Aqueles que estão mesmo abaixo do limiar da pobreza é urgente tirá-los de lá aumentando pensões ou salários; para os que estão ligeiramente acima dessa linha, é preciso assegurar que, em cada ano, os aumentos são suficientes para não haver perda de compra. Toda a pirâmide de rendimentos precisa de ser revista, essa revisão só pode ser feita pelas autoridades governamentais (porque aí é que estão os técnicos e porque é aí que se recolhem os dados, os números) mas nós, fora da esfera governamental, temos de exigir. É muito cansativo um melhoramento aqui, outro acolá. A pobreza continua, não há vislumbre de mudança significativa.

Esta é uma preocupação real. É verdade que não sei fazer as contas mas não me compete a mim fazer as contas. A minha dor não se apazigua com as minhas contas. Como cidadã, cabe-me pôr o dedo na ferida e pressionar seja pela escrita seja na rua. Não me conformo e recuso-me a andar cabisbaixa. Creio que temos entre mãos muito trabalho mas vale a pena. Primeiro, analisar bem o que se conseguiu nestes dois anos; depois, equacionar as metas que nos soam como indispensáveis para vencer as iniquidades que reconhecemos.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária reformada da função pública. Candidata do Bloco de Esquerda nas eleições legislativas de 2015, pelo círculo eleitoral de Lisboa. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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