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A contaminação pela crise chinesa

Os festejos governamentais sobre os investimentos chineses nas privatizações já deram lugar ao pesadelo. Talvez tenhamos que acordar com a tempestade.

Portugal é o país europeu com maior investimento chinês no último ano e o quarto em valor absoluto entre 2000 e 2014, só ultrapassado pela Alemanha, Inglaterra e França (ver o mapa, clique para ampliar). Se se concretizar a venda do Novo Banco a uma empresa chinesa, será pelo segundo ano consecutivo o recordista. Pode não acontecer, porque o BCE está a pressionar o Banco de Portugal para se afastar dos concorrentes chineses.

Em todo caso, tudo isto são péssimas notícias. Porque se trata de privatizações de bens estratégicos essenciais, o que só por si sugeriria que se evitassem estes erros irreparáveis. Mas ainda porque são entregues a um dos poderes financeiros mais opacos – o Partido Comunista Chinês é um dos centros da acumulação mundial de capital, mesmo que um dirigente político português afirme que nada disso impede um “relacionamento” – e porque se trata de uma estatização por outro país.

Mas é ainda uma péssima notícia porque, ao contrário dos outros países europeus, no nosso caso não se trata de investimento que crie emprego: trata-se de compras de carteiras de ações para dominar empresas privatizadas. E, finalmente, é uma péssima notícia porque aumenta a vulnerabilidade da economia portuguesa a decisões políticas e financeiras sobre as quais não existe nenhum instrumento nacional de controlo.

Na segunda feira, com a queda de 8,5% da Bolsa de Xangai, as 300 maiores empresas asiáticas desvalorizaram 230 mil milhões de euros; o mercado financeiro mundial terá perdido 450 mil milhões. Na terça feira, ontem, houve uma recuperação medíocre até meio do dia, nova queda no final da sessão das Bolsas norte-americanas (imagem ao lado) mas, finalmente, um crescimento na Europa (os leitores tomarão em consideração que estes valores são nocionais, porque só se concretizam se houver compras e vendas e portando perdas dos proprietários atuais). Na segunda-feira, a Bolsa portuguesa perdeu 3,1 mil milhões em valor. As Bolsas da Alemanha perderam nesse dia tudo o que tinham subido em 2015.

O Diário do Povo, do PC Chinês, declarou que se tratava de uma “segunda feira negra”, para estabelecer a comparação com a crise de 1929. Começou a montanha russa.

Não é para menos. Desde que começou a desvalorização do yuan, a moeda chinesa, os mercados financeiros mundiais perderam 5 triliões de dólares (em valor das ações). Com a crise desta semana, o euro subiu e as moedas chinesas e norte-americana perderam; então, a vítima será a Europa, que terá menos capacidade para exportar para a China (contração da procura) e para o resto do mundo (encarecimento do euro).

O contexto é portanto perigoso. Os EUA e a UE têm pouca margem de manobra para responder a uma crise especulativa, porque os juros estão excecionalmente baixos e nada pode ser feito com a política monetária, que tem o maior efeito a curto prazo.

Embora o efeito na economia mundial ainda seja reduzido, o susto é grande. Uma queda surpreendente de 20% nas Bolsas chinesas ao longo de poucas semanas e um sobressalto num dia podem simplesmente significar uma perda importante para os aforradores e investidores chineses. Mas podem também implicar um efeito dominó que, em 2007 e 2008, foi devastador, provando que a economia mundial se baseia num jogo financeiro fictício e certamente perigoso.

Tudo isto tem um preço para Portugal. O comportamento das empresas chinesas será determinado pelo Comité Central e pelas suas necessidades de capital. Ora, como Ricardo Cabral já aqui demonstrou no caso da Fidelidade, essas necessidades podem levar a esventrar as empresas, com consequências no banco público, a CGD.

Os festejos governamentais sobre os investimentos chineses nas privatizações já deram lugar ao pesadelo. Talvez tenhamos que acordar com a tempestade.

Artigo publicado no dia 26 de agosto em blogues.publico.pt

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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