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A cimeira do tempo perdido

A Conferência de Varsóvia sobre Alterações Climáticas ficará na história não apenas pelo recuo no combate às alterações climáticas, mas também por ter estendido a passadeira vermelha para os lóbis das indústrias poluentes.

A COP 19 (Conferência das Partes sobre Alterações Climáticas, realizada em novembro no quadro das Nações Unidas) tinha por objetivo avançar em compromissos que permitam chegar em 2015 a um acordo vinculativo para substituir o Protocolo de Quioto. O seu fracasso em toda a linha ficou bem demonstrado na decisão de 800 delegados de ONG e movimentos sociais, que a abandonaram em protesto contra a falta de iniciativa e o aumento do poder da indústria poluente sobre os representantes dos governos.

A influência do lóbi do carvão junto dos organizadores ficou bem patente na realização de uma cimeira paralela, com o apoio do governo anfitrião, que apresentava esta indústria como fazendo parte da solução para a catástrofe climática. A presença nessa cimeira dos poluentes da responsável da ONU pelas negociações sobre o clima, Christiana Figueres, indignou as organizações da sociedade civil presentes na conferência da ONU, que já se tinham manifestado contra a escolha de empresas poluentes como a PGE, Alstom, LOTOS, ArcelorMittal, BMW, General Motors ou Emirates Airlines como "parceiros oficiais" da COP19 realizada este mês em Varsóvia, dando-lhes acesso exclusivo aos negociadores. 

Quanto ao papel dos países mais ricos e industrializados na COP19, em vez de tomarem a dianteira no cumprimento dos compromissos de travarem as emissões de gases de efeito estufa e ajudarem os países mais pobres a suportar os custos da adaptação a fontes de energia limpa e mitigação das consequências das alterações climáticas, acabaram por tomar o caminho inverso e seguir a agenda do lóbi poluente: mais mercado de carbono, que garante lucros milionários sem efeitos reais no decréscimo das emissões, e mais promessas vagas para um futuro longínquo. 

Nem o facto da cimeira ter decorrido em simultâneo com o maior tufão dos tempos modernos, que arrasou o arquipélago filipino deixando um rasto de milhares de mortos, abalou as consciências de lóbistas e representantes dos países ricos. Todos saíram de Varsóvia como tinham entrado, sem nenhum acordo palpável a não ser um texto vago em que a palavra "compromisso" foi rejeitada pelos signatários. 

Tendo em conta as previsões da ONU que apontam, no pior cenário, para um aumento de 4,8 graus Celsius na temperatura média do planeta e para a subida do nível do mar até 63 cms no fim do século, ou que nos últimos vinte anos já morreram mais de meio milhão de pessoas devido aos cerca de quinze mil fenómenos climáticos extremos, este sequestro dos decisores políticos pelos lóbis poluentes - revelado de forma bem patente em Varsóvia - terá consequências ainda mais trágicas para o futuro da Humanidade.

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