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Chorar, para não rir

Este Governo caiu de podre, implodiu, gripou, deu o berro. Prolongar a sua existência é um erro tremendo, bom apenas para os humoristas.

Com maiores ou menores variantes, eis uma das Leis de Murphy: as coisas podem sempre piorar. Quando achávamos que o Governo tinha batido no fundo, que pior era impossível, que o cenário já era suficientemente dantesco, o país é brindado com uma implosão interna com contornos trágico-cómicos. Novela ou reality-show, a escolha fica ao critério de cada um. Aliás, reconstituir o enredo em curso não é uma tarefa fácil.

Primeiro temos um Ministro das Finanças, número dois do Governo, que se demite sem esconder divergências e falta de apoio interno. Segue-se uma Secretária de Estado envolta em graves polémicas que é promovida a ministra, para surpresa de todos. No dia seguinte, a demissão “irrevogável” de Paulo Portas, que nem chegou a aquecer o cargo de número dois do Executivo. Segue-se um insólito “não aceito” vindo de Passos Coelho, tentando assim num gesto patriótico-dramático salvar o seu Governo. O Paulo que bateu com a porta no dia antes, vem então dizer que afinal a sua irrevogável saída não era para levar muito a sério, tudo culminando neste mesmo dia com numa conversa “construtiva” com o Pedro em São Bento. No dia seguinte, novas conversas entre o Pedro e o Paulo e, surpresa das surpresas, temos o regresso do “Eu fico”, o famoso slogan da candidatura de Portas a Lisboa em 2001. Afinal o Paulo fica, afinal tudo não passou de um tremendo mal-entendido.

O problema é que a comédia acima tem consequências bastante graves. O país viu assim de forma anedótico-dramática o valor das juras de entendimento, de responsabilidade, de patriotismo que nos últimos anos lhe têm sido vendidas pelo atual Governo. Viu também desmoronarem-se os pseudo-consensos e as pseudo-certezas quanto ao caminho seguido e seus resultados.

Julgo que nem vale a pena discutir sobre se este Governo deve ou não manter-se em funções. Caiu de podre, implodiu, gripou, deu o berro, foi à vida. Prolongar a sua existência é um erro tremendo, porque cairá no espaço de poucos meses. Teremos assim um governo cadáver, patético e anedótico, bom apenas para os humoristas.

As crises nunca foram momentos fáceis. E o que agora o país atravessará será com certeza dramático. Juros da dívida a dispararem, desconfiança dos credores, dúvidas sobre permanência no euro. A crise vai intensificar-se, não haja dúvidas a este respeito. Resta à esquerda convencer os portugueses que é preferível arrancar desde já o penso (o governo), do que prolongar a dor de forma indefinida.

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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