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Cecil

Enquanto ainda existirem energúmenos dispostos a viajar para o outro lado do mundo para matar animais, enquanto existirem governos e empresas que dão cobertura à matança, Cecil não pode ser esquecido.

Um dentista dos EUA viajou para o Zimbabwe para matar um leão. Tendo conseguido o seu troféu (a cabeça e a pele do leão), esperava certamente voltar para casa e planear a próxima viagem para satisfazer a sua sede de sangue. Com o que não contava, certamente, era com tornar-se uma das pessoas mais odiadas no mundo. O seu paradeiro é incerto mas o movimento anti-caça, alimentado pela notícia da morte do leão Cecil, cresceu rapidamente e já teve algumas importantes vitórias. Tudo isto são boas notícias (exceto a morte do leão, claro), pelo que agora interessa não deixar que o caso caia no esquecimento sem que sejam tomadas medidas para acabar com o aberrante negócio da caça.

 Desde que a polémica estalou, houve quem, tanto do lado pró como do lado anti-caça, questionasse a importância de Cecil face a outros leões e até outros animais mortos por caçadores. A resposta é óbvia: toda a causa necessita de um símbolo e Cecil é um bom símbolo. Desde logo, trata-se de um leão que, sendo estimado no seu país, tinha um nome. Os nomes próprios são irrelevantes para os animais mas tem uma importância crucial para os humanos, dado que um ser com um nome é um indivíduo e não um número. Por isso mesmo damos nomes aos animais de estimação, para valorizar a nossa proximidade com eles enquanto indivíduos. Por isso mesmo não damos nomes aos animais que são explorados na pecuária ou na experimentação animal, para criarmos uma distância e fazermos de conta que não são indivíduos. Aos olhos dos humanos, o leão Cecil não é apenas um leão, é o leão Cecil.

Cecil é um bom símbolo também porque sabemos os pormenores da sua morte. Sabemos que o caçador lhe espetou uma flecha e que o perseguiu durante dois dias, enquanto o leão se esvaía em sangue. Sabemos que o caçador lhe deu um tiro quando o leão já não conseguia andar e que depois lhe arrancou a cabeça e a pele, para levar como troféu. Sabemos que o caçador destruiu a coleira com GPS, que indicava claramente que este era um leão protegido por programas de conservação da natureza, e que a caçada aconteceu fora da reserva onde é autorizada. Ou seja, sabemos que a caçada, além de ilegal, foi cruel e covarde. Se é verdade que a crueldade e a covardia são caraterísticas inerentes a qualquer caçada, também é verdade que isso apenas se tornou evidente aos olhos da maior parte das pessoas depois de serem confrontadas com os pormenores mórbidos da morte de Cecil.

Lembrar Cecil não é apenas lembrar o leão que um humano resolveu chamar Cecil, é lembrar todos os animais que são mortos por caçadores ao abrigo de um negócio imperialista que destrói a vida selvagem africana com o pretexto de que está a financiar a sua conservação. A revolta em torno da morte de Cecil já serviu para atacar um dos elos mais fracos do negócio, as companhias aéreas, e já muitas das companhias que fazem a ligação com África acabaram com o transporte de troféus de caça (que são pedaços dos animais mortos). Mais importante que isso, nos EUA uma proposta de lei foi apresentada no Congresso que fará com que seja possível responsabilizar criminalmente os caçadores. Faz falta uma campanha que pressione os países europeus para seguirem esse exemplo.

Portanto lembremos Cecil. Mas lembremo-nos de Cecil sem esquecer o sofrimento de animais na caça de animais não selvagens, na pecuária e em tantos outros negócios que exploram animais. Lembremo-nos de Cecil ainda sem esquecer o sofrimento humano provocado pelo neocolonialismo, pelo racismo e pelo machismo que sustentam o negócio da caça em África.

Enquanto ainda existirem energúmenos dispostos a viajar para o outro lado do mundo para matar animais, enquanto existirem governos e empresas que dão cobertura à matança, Cecil não pode ser esquecido.

Sobre o/a autor(a)

Ricardo Coelho, economista, especializado em Economia Ecológica
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