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Carta da amada na Palestina

“Mas em cada morte uma duna erguia-se, uma praça se levantava. Em cada morte um rosto se revelava.”

Eram degraus de pó, um horizonte que se tornara pedra,

as crianças enlouquecidas.

“Mil olhos em vez de dois/mil milhas atravessadas a cada passo”

procuravam o verde das colinas, mas elas estavam enegrecidas

procuravam a sombra das oliveiras, mas elas estavam magoadas

procuravam uma terra para plantar, mas ela estava seca

procuravam outros olhos, outros lábios, mas eles morriam

oh, eles morriam

de cada vez morriam.

Mas em cada morte uma duna erguia-se, uma praça se levantava.

Em cada morte um rosto se revelava.

Um rosto com os seus olhos, os seus dentes e as suas mãos.

Em cada morte as “folhas brotaram como risos”

E os risos, aéreos, envolventes

Passaram os rios e o mar, indiferentes a tudo

Passaram os muros e sussurraram ao invasor

“A minha terra, o meu país!”.

 

Fundas são as vossas espadas que o sangue derrama em rios fartos,

longas são as vossas chamas como o inferno das almas

mas eu sei que o amado virá

“numa carruagem de botões em flor”.

Sei o sítio exato onde os seus lábios tocarão os meus

- em flor-

e os atravessarão como uma sede de milénios

e por isso

Permanecerei.

Permanecerei.

Permanecerei.

Os versos “Mil olhos em vez de dois/mil milhas atravessadas a cada passo” são de Mourid Al-Barghouti, traduzidos por Regina Guimarães

O verso “carruagem de botões de flor” é de Fadwa Tuqan traduzido por Renata Parpolov Costa.

Artigo publicado em gerador.eu a 19 de outubro de 2023

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário. Doutorado em Sociologia da Cultura e da Educação, coordena, desde maio de 2020, o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.
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