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A caminho da greve

A manifestação de 15 de Outubro surpreendeu a política planificada. E agora?

Sabemos de onde veio a ideia e a data: Porta do Sol, Syntagma. Em Portugal, vários grupos activistas, de opiniões diferentes, convergentes no apelo mundial do indignados e motivados pela evolução da ocupação de Wall Street, dedicaram-se a uma divulgação impressionante da manifestação. Nenhuma comunicação social os levou ao colo e foram compensados pelo risco de agir: quando Passos Coelho anunciou o seu orçamento do terror para 2012, havia uma resposta no calendário.

A manifestação de 15 de Outubro mostra que erra quem quiser um calendário de luta único, tutelado e de marca registada. Pelo contrário, uma esquerda que queira erguer-se à altura das suas tarefas terá de mostrar uma alternativa credível, radicalmente oposta ao plano austeritário, terá que ser parte activa da organização de um conflito social heterogéneo e terá que assumir a responsabilidade unitária. O 15 de Outubro mostrou que o país não está tomado pelo conformismo e que a luta não tem donos. Deixo três pistas que me parecem importantes para o trabalho da esquerda a partir daqui.

1) Nos tempos da barbárie escancarada, uma atitude militante na intervenção é o esforço para incluir a maioria. Queremos trazer às ruas gente que nunca se mobilizou, de todas as idades e de todo o país, gente que nunca votou ou que votou nos partidos do anterior e do actual governo, gente que passa à acção por descobrir com a pobreza a necessidade de agir e que, entre o desespero e o combate, escolhe o segundo. Para isolar o governo colonial, não podemos ensaiar menos que isso. Precisaremos de novos espaços para a resistência abertos. Estes espaços serão difíceis, agrestes, com muito desespero e euforias precoces. Para que possam crescer, a esquerda vai precisar de cuidado militante, organizar com a humildade de ouvir, propor sem ensinar.

2) Conhecemos as dificuldades da convergência. Depois de sábado passado, o grande teste é 24 de Novembro. A CGTP e a UGT reagiram com prontidão ao Orçamento. A desconfiança anti-sindical de muitos indignados do estado espanhol (onde as duas centrais se descredibilizaram profundamente no pacto para a reforma liberal das pensões) não tem correspondência em Portugal, onde a principal central manteve posições firmes contra os PECs. Mas Portugal já tem mais desempregados que sindicalizados. Uma aliança social ampla obriga a fazer da greve mais do que uma demonstração da força dos assalariados, indispensável neste momento. 24 de Novembro tem que ser um dia de luta generalizada, juntando indignados e precários, desempregados e estudantes, reformados e imigrantes, formas associativas de todo o tipo. A chamada da CGTP a "acções públicas em diversos distritos para dar expressão pública à indignação geral", no dia da greve, é um passo certo nessa direcção.

3) Engana-se quem anuncia na TV que o "descontentamento" (espécie inerte de revolta) resultante da “austeridade" (chique pseudónimo do assalto) dará por cá um "natural", pacato protesto. Enganam-se os precursores de um milagre português de resignação. O 15 de Outubro foi só um começo.

Alguém vai pagar a crise. São eles ou nós.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e dirigente do Bloco de Esquerda. Jornalista.
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