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A Bolsonarização, doença adulta da direita

Por toda a parte, a direita vive hoje para a polarização máxima. Não é por destrambelho nem por má vontade. É porque essa é a sua resposta à crise da democracia liberal a que o mundo assiste.

A polarização máxima é uma estratégia que tem duas variantes. A primeira é a da perpetuação da guerra fria e consiste em afirmar que essa polarização se dá entre o campo a que a direita chama “o mundo livre” – que é pintado como campo da democracia e do livre comércio global – e um campo que se opõe às políticas neoliberais – e que é caricaturado como campo do protecionismo e do autoritarismo. Nesta primeira variante, a estratégia de polarização é a de desqualificar a esquerda em nome de um centro que realmente é a direita. É a “moderação” contra “os radicalismos”. É a lengalenga de que os extremos tocam-se para atacar a esquerda e deixar incólume a direita.

Esta estratégia tem uma força e uma fraqueza. A força é a exploração do medo: “os radicalismos” são vistos não como denúncias da agressão social que são as políticas de austeridade, não como desmontagens do desprezo dos grandes atores globais pelas democracias nacionais, mas como aventuras contra as bênçãos da globalização e contra a razoabilidade económica. A sua fraqueza é a crescente fragilidade do seu suporte popular – o medo do desconhecido não é suficiente para evitar que cresça a perceção (e a experiência!) de insegurança das vidas concretas das camadas populares.

É essa fragilidade que leva a direita a optar cada vez mais pela segunda variante da estratégia de polarização máxima. Essa variante é a do trumpismo e consiste na adoção de políticas abertamente antidemocráticas, em nome de uma popularidade emocional e de superfície, para uma agenda em que a xenofobia e o ódio são convicções fortes e sobretudo argumentos úteis para unir contra o diferente. A capacidade de mobilização popular é, por agora, a sua força. O seu programa económico é a sua fragilidade: o esvaziamento da democracia é a forma política da imposição de um programa de punição do trabalho e de favorecimento das novas e das velhas elites.

Que a direita portuguesa – salvo raríssimas exceções – seja indisfarçadamente bolsonarista mostra como a sedução autoritária está em crescendo também por cá. E essa cada vez mais flagrante ausência de uma direita antifascista é um irrecusável recado para aqueles que teimam em sonhar com as supostas virtudes do centro.

Artigo publicado no diário “As Beiras” a 27 de outubro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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