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A Besta

Ao longo da História, a Besta tem assumido geografias, nacionalidades e contextos diversos. Porém, é frequentemente legitimidade pelos votos de uma maioria piedosa que procura ser salva…de quem e de quê, afinal?

Ao mesmo tempo que abocanha um suculento pedaço de Big Mac, made in McDonald’s, a Besta faz zapping, entediada e negligentemente. A absoluta impunidade de que se julga revestida (e investida!) autoriza-a a ignorar todos os acontecimentos que não sejam a prova da sua “tremendous” grandeza.

Por isso, não se deteve, ao cruzar-se com a obscena imagem de um homem e uma criança, abraçados dentro da mesma tee shirt, a boiar num rio que é Grande e Bravo e mortal.

A Besta não tem, nem tempo, nem paciência para estas minudências da(s) vida(s). Morrer, quando se tenta atravessar a fronteira entre o México e os Estados Unidos, é um azar, realmente, mas que tem a Besta a ver com isso?! Logo ela, que tanto tem lutado para concretizar a peregrina ideia de construir um muro de mais de 600 quilómetros, entre as duas fronteiras, exactamente para impedir que chatices como esta aconteçam!

Durante este exercício matinal de alternar hambúrgueres e canais noticiosos, também ignorou – por inconveniente e caloniosa, ora essa! – uma outra notícia: em território administrado pela Besta, há centros de detenção de imigrantes, onde as crianças são vítimas de maus tratos e sujeitas a condições, tão degradantes e desumanas, que a sua mera descrição esbarra com um vótimo de horror.

Mas, para a Besta, este é um ‘não assunto’, até porque o comissário interino da guarda fronteiriça já fez o favor de se demitir, dando, assim, oportunidade a que o seu lugar seja ocupado por outro comissário interino que já fez o favor de explicar que nada, neste indigno cenário, está fora dos conformes…

Há quem chame Trump à Besta. Eu não.

Ao mesmo tempo, a mais de 9500 quilómetros de distância, a Besta aprovou medidas duras, contra os barcos das ONG’s que salvem imigrantes, no Mar Mediterrâneo, entre as quais o pagamento de voltuosas multas, sempre que violarem a proibição de entrada, trânsito ou estacionamento, em águas territoriais italianas. Ah! E também serão usados agentes infiltrados e escutas telefónicas, para pôr cobro à pouca vergonha de salvar vidas humanas, a maioria delas bebés e menores de três anos!

Se perguntarmos a Miguel Duarte – activista português que participou numa missão humanitária, no Mediterrâneo – ele pode explicar-nos a ameaça surreal que impende sobre a sua cabeça, por vontade expressa da Besta.

Há quem chame Salvini à Besta. Eu não.

A Besta, face a deslocamentos populacionais gigantes, provocados pela guerra, pela fome, pelas alterações climáticas, pelo sofrimento, pela indignidade e desumanidade da vida e por tantas outras razões, proíbe, policia, segrega, prende, tortura e, finalmente, mata (mata mesmo!) homens, mulheres e crianças, cujo grande crime é serem vítimas das políticas insanas e perversas…da Besta.

Ao longo da História, a Besta tem assumido geografias, nacionalidades e contextos diversos. Porém, é frequentemente legitimidade pelos votos de uma maioria piedosa que procura ser salva…de quem e de quê, afinal?

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Deputada à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, desde outubro de 2008.
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