Está aqui

Bernie Sanders, o político dos jovens

Senador Sanders tem os seus maiores apoiantes na camada jovem, que se revêem nesta “nova” maneira de governar o país.

Bernie Sanders é o homem do momento, que muitos achavam que não tendo muitos apoios não chegaria a grande destaque. É sem dúvida a figura, que muitos consideravam “minoritária”, que se demonstrou a surpresa positiva das eleições, disputando até agora taco a taco com Hillary Clinton, grandes estados, como New Hampshire ou o Iowa.

Propõe uma mudança paradigmática, querendo reformas ambiciosas, principalmente em cuidados de saúde gratuitos (não esquecer que nos Estados Unidos os cuidados de saúde são mediados por seguros de saúde, que nem toda a gente tem possibilidades económicas de os poder pagar, para além de que a cobertura dos mesmos por vezes não contempla certos procedimentos cirúrgicos), um sistema de ensino básico, secundário e superior gratuito, é o único que se opõe aos "lobbies" petrolíferos (“francking”), que faz frente à xenofobia (muito característica do candidato republicano Trump), defende os direitos LGBT, feministas, e toda uma panóplia de premissas associada a um grande programa político para os Estados Unidos.

De reforçar que Sanders tem os seus maiores apoiantes na camada jovem, que se revêem nesta “nova” maneira de governar o país, que Sanders leva a cabo por pequenas premissas como as anteriores.

Sabemos que numa campanha política, seja de que ordem for, levar os jovens “a bom porto” é muito complicado. Os jovens em geral, e não só especificamente nos EUA, não estão particularmente arrebatados em participar na vida política, principalmente com esta figuração de irem votar.

O sufrágio foi em muitos lugares uma luta transversal das sociedades nos finais do século IX e princípios do século XX, que hoje em dia é muito “desprendida” dos jovens, que desvalorizam estas conquistas pois têm o sentimento generalizado de que o voto não se traduz nos atos políticos dos partidos, que antes da eleição promovem “mundos e fundos”, mas que na realidade o cumprimento é completamente diferente.

Não são desinteressados, os jovens possuem a característica de necessitarem de ação e realização, pois as promessas não movem mundos. Para falarmos desta participação ou alienação política, palavras como mobilização e abstenção são a ordem do tema.

É óbvio que os jovens, para além do voto com consciência social, discernindo o melhor, votam sobretudo com a sensibilidade e justiça de enxergar o serviço público, que todos devem ter, principalmente os mais pobres. Os jovens não são sujeitos isolados da sociedade, embora estejam de uma forma geral um pouco autoflagelados pela mesma.

Os jovens têm um papel fundamental nesta sociedade, enquanto membro desta, estes têm responsabilidade também sobre o rumo que o país toma, pois também no futuro serão eles a assegurá-la. Quando se olha para Sanders, olha-se para uma geração longínqua, de quem olha por parte dos jovens, mas olha-se para a revolução daquilo que os leva a contrariar a inércia de ficarem onde estão, de se absterem, por desacreditarem, e também pela própria desproteção que existe nesta camada, desde desemprego, precariedade, desproteção social de quem estuda e de quem trabalha.

Esta diferença de idades entre Sanders e os jovens não é uma lacuna, bem pelo contrário, este aborda temas que influenciam diariamente a vida destes jovens, como não possuírem dinheiro para terem saúde, para terem emprego, para terem educação. É neste programa político que os jovens sentem na “pele” o que realmente se passa. E sentem que há possibilidade de mudar ao contrário do que é proletarizado.

Pierre Bordieu tem um texto em que diz que a “juventude é apenas uma palavra”. A juventude é apenas uma palavra, na medida em que ela não se organiza enquanto sujeito, mas enquanto estrutura social. A visão juventude foi-se transformando, tendo exigências específicas, e essencialmente necessidades. Nas necessidades nascem os direitos, e é assim que hoje em dia alguns jovens sentem que é fundamental mudar, e é essa mudança que dá a Sanders a real vantagem. As chamadas “necessidades da juventude” são iguais, quer da sua geração quer da nossa. Sanders consegue associar-se e a sua proveniência dos movimentos e manifestações promove que os jovens de todas as classes, pobre e remediados, se revejam no que não está correcto na sociedade. Esta é outra vantagem, pois muitos jovens já desacreditaram de partidos ou políticos profissionais, estes querem a mudança, que se traduz essencialmente por estes movimentos e manifestações.

Naturalmente que esta geração jovem é marcada por um panorama social de desigualdades escandalosas, prepotência das finanças, figuração das privatizações, negócios comandados por mega-empresas e grandes bancos globalizadas, e a juventude surge acompanhada desta destruição que a sociedade levou, e mais uma vez são eles os maiores tomos da proliferação negativa da sociedade. São uma geração marcada por esta ideia de “à rasca” de que Sanders “fala”. Porque já ter alguém que fale vale a pena.

Na super terça do discurso de Sanders retira-se uma frase que colmata esta ideia: “A revolução no meio americano e a política de discussão são os ideais mais importantes, que até propriamente o vencer da eleição ditas para a presidência.” Tudo isto gera revolução nos jovens, promove o interesse e a luta, mesmo que não seja diretamente pela presidência, serve de mote de movimentos e de lutas sociais. Também isto leva a que se passe a trazer às fileiras de voto pessoas descontentes, e é assim que se consegue revolucionar o ambiente.

Numa alusão a uma frase que usa também como um dos motes da campanha “This Machine Kills Fascists”, com a imagem de uma guitarra, esta demonstra o espírito que este homem trouxe. A guitarra tal como a sua “voz” é aquilo que fica desta campanha. Com este homem prova-se que é possível “mudar o paradigma”, pois existem pessoas na sociedade que se reveem neste programa e nesta ideologia política, que sentem que não estão esquecidas e que há alguém que se preocupa em adotar medidas de proteção social, em que estas estão incorporadas.

E espero que a sua arma, “a voz”, consiga agir tal como a guitarra.

Artigo publicado em p3.publico.pt a 11 de março de 2016

Sobre o/a autor(a)

Estudante de Enfermagem na Escola Superior de Saúde do Politécnico de Setúbal
(...)