A banalização da contaminação autocrática

porFrancisco Louçã

06 de maio 2022 - 18:19
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Uma das raízes do processo de degradação democrática é a evolução das lideranças políticas norte-americanas, que sobredeterminam o nosso continente. É aí que está o mando.

Pese aos discursos de circunstância e à exibição do alívio, não houve um único analista que não tivesse notado nos resultados das presidenciais francesas a confirmação do crescimento social da extrema-direita e da impopularidade de Macron. A França prova assim que, empurrada pela invasão russa da Ucrânia para a desistência do seu projeto, se é que ele existia, a União Europeia mergulhou num mapa de fragmentação (o centro só resiste em alguns países), de promessas falsas (um novo alargamento a Leste) e de incapacidade de decisão estratégica (o aumento dos juros vai mudar de novo as regras orçamentais) — e não se vê se pode ou sequer se pretende sair disto. Uma das raízes deste processo de degradação democrática é a evolução das lideranças políticas norte-americanas, que sobredeterminam o nosso continente. É aí que está o mando.

A democracia é excedente?

A turbulência criada pela compra do Twitter por Elon Musk é sinal de aceleração da luta política poucos meses antes das eleições intercalares, que poderão decidir a sorte de Biden e o futuro de Trump. Mas o episódio e o medo bolsista que gerou não pode surpreender. Musk é um aventureiro que um dia apoia a extrema-direita do seu país e outro dia condena a política sanitária, e que se propõe usar o poder algorítmico a bel-prazer. Não é o único, esta cultura autoritária está profundamente ancorada entre os campeões da economia da internet: Peter Thiel, o fundador do PayPal e membro da administração do Facebook, de que foi um dos maio­res acionistas, escrevia rudemente há poucos anos que, “mais importante, já não acredito que a liberdade e a democracia sejam compatíveis” e que ansiava por um profeta que tomasse conta do país, pois, “ao contrário do mundo da política, no mundo da tecnologia as escolhas dos indivíduos ainda podem ser determinantes. O destino do nosso mundo depende do esforço de uma única pessoa que constrói e propaga a máquina da liberdade que torna o mundo seguro para o capitalismo”. Também o frenesim da Amazon para impedir a sindicalização dos seus trabalhadores evidencia as bases históricas desta forma de poder. Assim sendo, tire da ideia qualquer noção de que a internet seja o espaço de democratas que querem promover a liberdade de expressão para toda a gente.

A degradação antidemocrática ocidental não começou nem em França nem com Le Pen. A proibição de romances ou de livros de História e de Matemática nos EUA aponta para uma raiz cultural mais poderosa

Dani Rodrik, professor de Economia em Harvard, tem uma explicação para o reforço desta cultura antidemocrática. Segundo as suas contas, desde 1979 os ganhos salariais são um terço dos ganhos em produtividade (os salários reais terão crescido 17,5% e a produtividade 61,8%), o que gera a acumulação de capital que elevou Trump. Dois prémios Nobel, Angus Deaton e Paul Krugman, encontram aqui a razão das “mortes por desespero” e por pobreza ou da radicalização da direita, confiante na sua base social que suporta o privilégio. Por outro lado, Jeffrey Sachs, diretor do Programa Milénio, da ONU, aponta a forma da reprodução deste poder: 15 mil milhões de dólares em financiamento de empresas a campanhas eleitorais. O capital manda e só cuida de manobrar as democracias.

O mundo a preto e branco

A transformação económica impulsiona uma mutação política. O caso da Flórida tem sido o mais evidente, projetado pela manifesta ambição presidencial do governador republicano DeSantis, que cria agora dois conflitos de alto perfil. O primeiro é com a Disney, em vingança contra a crítica do seu administrador a uma lei antigay. A Disney, cujo fundador não escondera, à época, as suas simpatias nazis, adotou décadas depois então posições tolerantes e por isso atacou a lei. A retribuição foi a anulação do acordo fiscal privilegiado de que beneficiava como maior empregador do Estado. O segundo conflito, mais surpreendente, foi a proibição de 54 livros de Matemática das escolas públicas, quase metade dos utilizados, sob a acusação de incluírem problemas com um contexto racial (como calcular a distribuição estatística das diferenças de rendimentos).

Raça e género são temas proibidos no país republicano. No Wyoming e Oklahoma discutem-se leis para proi­bir as bibliotecas públicas de disponibilizarem livros sobre sexualidade. Uma escola de Tennessee exigiu a retirada de “Maus”, a novela gráfica sobre o Holocausto que recebeu o Prémio Pulitzer. Obras da Nobel da literatura Toni Morrison são condenadas. No entanto, o livro que mais concentra o ódio dos conservadores é o “The 1619 Project”, um trabalho do “New York Times” de 2019 que se tornou um sucesso editorial. O livro lembra que a história moderna dos EUA não começou em 1620, com o desembarque do “Mayflower”, mas sim no ano anterior, quando um barco negreiro, o “White Lion”, aportou à Virgínia. Trump, então Presidente, denun­ciou o livro e cinco Estados proibiram que fosse usado nas escolas. DeSantis, naturalmente, interditou-o.

O que o livro investiga é a necropolítica, que, na base do racismo, constituiu territórios de exclusão e de privilégio. Mostra como Washington, o primeiro Presidente, geria os seus escravos, ou como Thomas Jefferson, o terceiro Presidente, hipotecou os escravos para construir o seu palácio, Monticello. Nada de novo: na melhor história dos EUA, “These Truths”, de Jill Lepore, são documentados 6500 linchamentos desde o fim da escravatura ou a participação de cinco milhões de membros no Ku Klux Klan. Mas, para o partido trumpista, estudar factos não é admissível, nem em livros de Matemática. É aqui que cresce a cultura de extrema-direita.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 29 de abril de 2022

Francisco Louçã
Sobre o/a autor(a)

Francisco Louçã

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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