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Autocarros na região de Setúbal: Mais de metade “fora de serviço”

Este número impressionante de 57% de falhas dá uma ideia do sofrimento por que estão a passar as populações da Península de Setúbal.

O jornal “O Setubalense” teve acesso a dados internos (uma amostra) da empresa que ganhou o concurso internacional para prestar o serviço de autocarros no concelho de Setúbal e limítrofes a partir de 1 de junho passado. Apurou que no passado dia 24 de setembro, sábado, apenas circularam 23 dos 53 autocarros previstos. Este número impressionante de 57% de falhas dá uma ideia do sofrimento por que estão a passar as populações da Península de Setúbal. Mais para norte, nos concelhos à volta de Almada é outra empresa, mas a situação não é melhor. Este fim de semana, os utentes saem à rua em protesto no sábado em Setúbal e Costa da Caparica e no domingo em Cacilhas.

Passados quatro meses em que as duas empresas em questão (ALSA e TST) faltam de forma flagrante e massiva aos horários e carreiras previstas e aos contratos que assinaram, algumas Câmaras municipais dão sinais de reconhecer finalmente a gravidade da situação. O descontentamento generalizado tem estado disperso. Mas a Câmara de Setúbal (CDU) e outras do PS e da CDU começam a estar debaixo do fogo de críticas. E se é verdade que as duas empresas citadas são as responsáveis por este crime de não cumprir o contrato e lançar milhares de pessoas e famílias no desespero e na incerteza, também as Câmaras da região se comportaram como relações públicas dessas empresas, desvalorizando as críticas e “prometendo” repetidamente que faltaria uma ou duas semanas para tudo ficar resolvido. Hoje está à vista que as duas empresas concessionárias dos autocarros não só desprezam absolutamente as pessoas utentes do transporte público, como gozam com as entidades públicas a quem deviam prestar contas: Câmaras e empresa Transportes Metropolitanos de Lisboa/Carris Metropolitana. Uma das Câmaras fez um ultimato à ALSA, instando-a a pelo menos a publicitar “horários reduzidos” que pudesse assegurar: agora queixa-se de que a empresa não respondeu ao “ultimato”(!!).

À espera de 60 motoristas que ainda nem partiram de Cabo Verde

Uma das estratégias das empresas é não passarem cartão ao público que compra os passes e paga os bilhetes, percebendo que as pessoas não têm quem as defenda. Nas reuniões públicas que se vêm fazendo e em que as pessoas vão expondo os seus casos e experiências de uma, duas, três horas de espera nas paragens (para nada!), percebeu-se a razão por que inúmeros autocarros passam a grande velocidade vazios, sem parar, com as palavras FORA DE SERVIÇO ou RESERVADO no lugar do destino. Sabe-se agora que os motoristas têm ordens estritas. Por exemplo: um autocarro faz uma carreira até ao fim da linha, mas tem ordem para não fazer o trajeto inverso e em vez disso ir para outro bairro ou localidade, fazer outra carreira, ou seja “dividir o mal pelas aldeias”. Assim se explica por que razão durante várias horas não se realiza uma carreira aqui, outras tantas horas não se realiza ali, rotativamente, lançando o caos e a perplexidade nas pessoas abandonadas nas paragens. Para além do caso em que as carreiras são suspensas porque não há quem renda os motoristas que, claro, têm o direito de ir almoçar.

Nem as empresas nem as Câmaras nem a empresa pública constituída para gerir os transportes informam quantos milhares de pessoas estão a desistir radicalmente de usar o transporte público. Nem querem saber quanto as pessoas gastam em táxis, ou se socorrem de familiares com carro, ou pura e simplesmente vão a pé ou desistem de ir trabalhar ou ao hospital ou do simples direito de sair.

Atualmente as empresas afixaram massivamente nas paragens os horários “novos” e ”reforçados” que tinham sido contratualizados quando ganharam os concursos. Mas nenhum motorista se atreve a responder a qualquer dúvida de utentes. Nem nos gabinetes de apoio ao público alguém se atreve a garantir que o horário afixado vai ser cumprido: na maior parte dos casos não será! Os horários estão afixados por pressão das Câmaras, mas os donos das empresas “não têm nada a ver com o assunto”. E a raiva vira-se contra as Câmaras e em alguns casos, felizmente poucos, contra os sacrificados motoristas lançados para este ambiente de tensão e fúria.

As populações acabaram por ir encontrando as peças para perceber esta situação kafkiana. No fundo as duas gigantes multinacionais ALSA e TST querem mais lucro que o que anteviram nos contratos. Pagam miseravelmente aos motoristas e retiram-lhes regalias e eles vão-se embora. Correm com os passageiros depois de terem pago os passes e aumentado escandalosamente os bilhetes comprados a bordo e deixam-nos em terra.

Entretanto há Câmaras que buscam desesperadamente outras empresas para pelo menos garantir o transporte para alunos que vivem longe das cidades e vilas, pensando depois imputar este custo extra às empresas recalcitrantes. Ao mesmo tempo vão dizendo que os processos em tribunal contra as empresas levariam muito tempo. É certo e sabido que os contratos estão blindados, garantindo-lhes a impunidade.

Dizem agora que estão quase a chegar 50 novos motoristas dos 60 e tal que dizem faltar e que seriam suficientes para resolver o s problemas. Que vêm de Cabo Verde, só falta o visto e depois a formação. Com os mesmos salários mínimos miseráveis e sem regalias? Quanto tempo vão aguentar?

E cabe perguntar: de que está à espera o Estado português para se impor e acabar com a lei da selva imposta por estas duas multinacionais? As pessoas e a defesa do clima valem menos que os lucros dos seus acionistas?

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